O PREPARA-M.CV, com um orçamento de quase 180 mil euros, reúne investigadores de Cabo Verde, Portugal, Espanha e Reino Unido para melhorar o diagnóstico de infeções respiratórias pediátricas, promover a prescrição racional de antibióticos e reforçar a vigilância da resistência antimicrobiana no arquipélago.

A Universidade de Cabo Verde lidera um novo projeto de investigação que se propõe transformar a forma como o país diagnostica e trata as infeções respiratórias em crianças, ao mesmo tempo que combate um dos maiores desafios globais de saúde pública: a resistência aos antimicrobianos. O projeto PREPARA-M.CV - sigla para Improving the Management of Pediatric Respiratory Infection, Antimicrobial Resistance and Public Awareness through Evidence-Based Diagnostics and Surveillance in Cabo Verde - é financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do concurso "+ Investigação", dedicado ao apoio a projetos de investigação em saúde conduzidos por investigadores seniores dos PALOP.
O estudo parte de um diagnóstico preocupante: em Cabo Verde, as doenças infeciosas continuam a ser a segunda causa de morbilidade geral em crianças menores de cinco anos e a principal causa de morte nesta faixa etária, com as infeções do trato respiratório inferior e as doenças diarreicas no topo da lista. Os dados do Ministério da Saúde apontam para uma incidência de infeções respiratórias agudas de 7.551 por 10.000 crianças, enquanto estudos recentes demonstraram que cerca de 80% destas infeções têm origem viral - o que significa que uma parte significativa dos antibióticos prescritos poderá ser desnecessária, alimentando o ciclo da resistência antimicrobiana.
A investigação, de natureza multicêntrica, combina um estudo clínico, com um estudo laboratorial. Na vertente clínica, a equipa trabalhará com médicos do Hospital Agostinho Neto (HAN) e de centros de saúde da Praia, promovendo cursos e workshops de capacitação em gestão de antimicrobianos, complementados por uma estratégia de auditoria e feedback destinada a melhorar os padrões de prescrição de antibióticos. Na vertente laboratorial, serão analisadas amostras de 200 crianças entre os 0 e os 12 anos, com recurso a testes de diagnóstico rápido (point-of-care), identificação de patógenos bacterianos, perfis fenotípicos de resistência e caracterização genotípica do Streptococcus pneumoniae.
Consórcio PREPARA-M.CV
A equipa é liderada por investigadora da Uni-CV e conta como parceiros nacionais: o Hospital Agostinho Neto, o Instituto Nacional de Saúde Pública e a Ordem dos Médicos, garantindo uma ligação direta entre a investigação e a prática clínica. Como parceiros internacionais conta com: o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT/NOVA) em Lisboa, o Instituto Universitário de Doenças Tropicais das Canárias, a Universidade de Leicester, no Reino Unido e o Centro Nacional de Endemias de São Tomé e Príncipe, que participa como observador científico.
Estrutura do projeto - 6 Work Packages
O projeto inscreve-se num contexto em que Cabo Verde já registou aumentos significativos da resistência antimicrobiana. Estudos anteriores documentaram, entre 2013 e 2017, crescimento da resistência a penicilinas, sulfonamidas e fluoroquinolonas, enquanto a amoxicilina permanece como o antibiótico mais dispensado tanto nas farmácias públicas como nas comunitárias. A presença de resíduos de antibióticos em águas residuais e subterrâneas, detetada em estudos de 2023, agrava ainda mais o cenário.
Entre os resultados esperados, o projeto ambiciona gerar evidências integradas sobre a prevalência bacteriana e os perfis de resistência, validar um protocolo de diagnóstico molecular, criar um sistema de vigilância com padrão internacional, reduzir a prescrição desnecessária de antibióticos e preparar recomendações políticas baseadas em evidências que apoiem diretamente o Plano Nacional de Controlo da Resistência aos Antimicrobianos.