O Professor Doutor António Lobo de Pina, da Uni-CV, explicou como foram recolhidos e trabalhados os dados que fundamentam a submissão conjunta de sete Estados.

Durante sete meses, um navio de investigação percorreu toda a região do projeto, a trabalhar 24 horas por dia, por turnos. Recolheu 36 mil km de linhas sísmicas 2D, 40 mil km de linhas batimétricas e dados de 60 sonoboias. É com estes dadosque Cabo Verde, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau, Mauritânia, Senegal e Serra Leoa pretendem estender a sua plataforma continental para além das 200 milhas náuticas.
Os números foram apresentados a 16 de outubro, na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), pelo Professor Doutor António Lobo de Pina, responsável técnico-científico da Comissão Nacional de Cabo Verde desde o início do processo e conselheiro estratégico da Reitora. A intervenção integrou a conferência sobre o projeto sub-regional de extensão da plataforma continental, promovida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e Comunidades.
Primeiro, o que já existia
Antes de ir para o mar, a equipa reuniu os dados que já existiam sobre a região, entre os quais batimetria antiga, sísmica analógica e batimetria por satélite. Georreferenciou também publicações científicas para compreender os processos sedimentares do talude continental. Foi esse levantamento que mostrou as lacunas a preencher. O trabalho contou com o apoio de instituições norueguesas, entre elas a então Direção Norueguesa do Petróleo e a GRID-Arendal, que assegurou a formação inicial.
Tudo depende do pé do talude
Toda a submissão depende dos chamados pontos do pé do talude. O talude é a encosta íngreme que, a partir de cerca de 200 metros de profundidade, desce da plataforma continental até ao fundo do oceano, e o pé é o ponto onde essa descida termina e o fundo começa a ficar plano. É a partir deles que se aplica a fórmula das 60 milhas náuticas, ou a da espessura dos sedimentos, para projetar o limite exterior da plataforma. A equipa marca esses pontos com o software Geocap, cedido pela Noruega e atualizado todos os anos. A Comissão de Limites analisa-os um a um e pode mandá-los rever. “Cada vez que manda voltar com isso para trás, perde-se terreno”, explicou o investigador.
O dossiê entregue nas Nações Unidas a 25 de setembro de 2014 tem 300 páginas, seis capítulos e três anexos, também em formato digital. Divide a margem em cinco regiões com geologia e geomorfologia distintas, do norte de Cabo Verde à bacia da Serra Leoa, passando pela elevação de Cabo Verde e pela bacia da Gâmbia. Foi apresentado à Comissão em 2015.
O estudo da elevação de Cabo Verde trouxe respostas a uma pergunta que, segundo o investigador, todos os cabo-verdianos fazem. Pelas estimativas apresentadas, algumas ainda por confirmar, o Sal será a ilha mais antiga do arquipélago, com 27 a 28 milhões de anos de formação. O Fogo será a mais recente.
Quase vinte anos de espera
Segundo o investigador, a Comissão de Limites já recebeu 98 submissões. Das 97 entregues até 2025, só 47 têm recomendações finais. A análise de um processo como este leva em média 10 a 15 anos, e o da África Ocidental caminha para os 20.
Para não perder o conhecimento acumulado, explicou o coordenador técnico norueguês, Nils Sandstå, o projeto lançou em 2025 uma plataforma digital que reúne a submissão, relatórios, acordos e publicações. Criou também uma aplicação de mapas que se pode consultar no telemóvel.
