Por ocasião Fórum da Língua Materna Cabo-verdiana, organizado pela Associação da Língua Materna Cabo-verdiana (ALMA-KV/CV), em comemoração do Dia Internacional da Língua Materna e do 50º aniversário da independência de Cabo Verde, a Uni-CV, parceira do evento, conversou com o conferencista convidado, o linguista, especialista em cabo-verdiano, Doutor Jurgen Lang.
Jurgen Lang é um dos mais respeitados estudiosos de cabo-verdiano, a nível internacional. Os seus estudos sobre a língua cabo-verdiana remontam a mais de 40 décadas.
1. Como a língua cabo-verdiana entrou no seu percurso investigativo?
Quando, com ocasião da minha tese de doutoramento sobre a excisão de línguas em dialetos (a sua 'dialetalização'), comecei a interessar-me pelo fenómeno da crioulização, concorriam teorias opostas na crioulística: havia os que pensavam, como R. W. Thompson, que as línguas crioulas de base espanhola, francesa e inglesa eram de facto crioulos portugueses (ou simplesmente 'o cabo-verdiano') 'relexificados'; além disso, acabava de ver a luz a teoria de Derek Bickerton, segundo a qual seriam as crianças da segunda geração a criarem os crioulos, recorrendo a uma suposta gramática universal; e havia os que, como Robert Chaudenson, defendiam, continuando a linha de Antoine Meillet, que nos crioulos, apesar de serem línguas novas, havia poucos vestígios das respetivas línguas 'de substrato'. No capítulo sobre a crioulização da minha tese de 1982 defendi que a crioulização difere fundamentalmente da dialetalização porque os crioulos começam sendo ligações entre uma matéria linguística fornecida pelas suas línguas de base ('superestratos') e uma forma linguística dada pelas suas línguas de 'substrato', africanas etc. Para verificar ou falsificar a minha teoria e ao mesmo tempo a de R.W. Thompson decidi estudar o crioulo cabo-verdiano da ilha de Santiago. No início do meu percurso de crioulista houve, pois, um interesse meramente teórico. Mas, uma primeira viagem a Cabo Verde junto com o meu filho mais velho, cativou o meu coração a tal ponto que preferi sempre voltar aqui, em vez de viajar pelo mundo dos outros crioulos.
2. O cabo-verdiano é considerado um dos crioulos mais antigos do mundo. É mesmo assim?
Entre os crioulos de base europeia, os de base portuguesa são os mais antigos e entre estes não conheço nenhum que seja mais antigo que o da ilha Santiago de Cabo Verde. Mas, dando-se as circunstâncias apropriadas, nenhuma língua escapa à crioulização. E de facto já conhecemos crioulos de base árabe (Juba Arabic, Kinuba, etc.), africana (Kituba, Lingala, etc.), malaya (Sri Lanka Malay, etc.), americanas (Michif, etc.), etc. Aliás, só comparando um crioulo com a(s) sua(s) língua(s) de base podemos saber que nasceu por crioulização. Se o português tivesse desaparecido e ninguém se lembrasse dele, não teríamos nenhuma justificação para afirmar que o cabo-verdiano nasceu por crioulização. Tendo em conta que o homem fala desde há pelo menos 100 000 anos, é pouco provável que exista alguma língua que não surgisse há muito ou pouco tempo por crioulização de outra. Boa parte dos crioulistas parece que ainda não se apercebeu disto.
3. O que há de original no caso de Cabo Verde?
Historicamente, diria que é a possibilidade de mostrarmos, alegando documentos históricos do século XV e traços linguísticos do cabo-verdiano atual que foram falantes da língua wolof que assentaram as bases estruturais da variedade historicamente, demograficamente e politicamente mais importante do crioulo cabo-verdiano. Quanto à situação atual, acho surpreendente a enorme riqueza de variedades, Barlavento a distinguir-se de Sotavento, e Santo Antão a mostrar particularidades muito conspícuas dentro do conjunto das variedades de Barlavento.
4. Com base em tudo que já estudou, qual poderemos dizer, então, foi o papel das línguas africanas na crioulização em Cabo Verde e o seu impacto na estrutura da língua?
Não há crioulização sem uma o várias línguas 'de substrato', que no caso cabo-verdiano foram todas africanas. De acordo com a minha posição exposta no ponto 1, estruturalmente, a língua que surgiu na ilha de Santiago foi inicialmente cem por cem africana e quase cem por cem wolof. Os wolof (maioritariamente escravizados) não tinham acesso às estruturas portugueses. A fala dos seus donos, para eles, constituía apenas ruído. Tinham de se valer das estruturas das suas línguas primeiras para interpretá-la. Com o passar do tempo, intervinham outras línguas africanas (nomeadamente o mandinka, a língua mais ocidental do conjunto mandê) e o crioulo em formação ia-se afastando dos substratos africanos aproximando-se do português - até que os seus falantes compreenderam que não os deixariam fazer parte da sociedade portuguesa como membros de pleno direito nem lhes interessava já serem admitidos nela. Mesmo assim, estruturalmente, o santiaguense permanece muito mais próximo do wolof que do português. Dediquei a maior parte dos meus estudos crioulos a prová-lo, e por isso, limito-me a dar um único exemplo: o crioulo de Santiago - cujo sistema verbal é fundamentalmente aspetual como o do wolof e não temporal como o do português marca a imperfeitividade pela marca ta como o wolof que para tal usa o seu di (variantes d-, -y), marca a passividade por -ducomo o faz o wolof usando -u, e marca a anterioridade (em relação ao momento de fala, nos verbos de estado, e em relação a outra ação passada, nos verbos de ação) por -ba como faz o wolof com -(w)oon. Em Santiago diz-se Labáda ropa 'A ropa tinha sido lavada' (Paula Brito dizia ainda Labáduba ropa), em wolof se diz o mesmo Raguwoon raxas. Temos portanto:
Wolof: |
Rag- 'lavar' |
-u- 'passividade' |
-woon 'anterioridade |
raxas 'ropa' |
Badiu: |
Labá- " |
-d(u " |
-b)a " |
ropa " |
Os portugueses disseram alguma vez *Lavádova a ropa ou *A ropa lavádova?
5. O que a variação interna do cabo-verdiano pode-nos ensinar sobre a nossa história e sociedade?
Não sei responder a esta pergunta!
Talvez com exceção de Santiago e de São Vicente, parece-me que faltam ainda estudos que estabeleçam uma ligação coerente e convincente entre a história social e linguística das ilhas cabo-verdianas. Para o Fogo, o que escreveu Maria Manuel Torrão sobre um circuito comercial independente 'Portugal - Fogo - costa africana' baseado no monopólio do algodão foguense da coroa poderia apontar para uma composição da sua população escrava diferente da de Santiago? O percurso da variedade da Brava terá muito que ver com a pesca da baleia no século XIX e as correspondentes idas e vindas entre a ilha e os Estados Unidos? A Boavista parece ter participado em parte nos desenvolvimentos de Sotavento e de Barlavento? Com o seu aeroporto internacional, o Sal poderia ter-se convertido, no século XX, num gel de fusão de todas as variedades do crioulo cabo-verdiano?
Mas o maior mistério para mim continua sendo o surto das variedades de São Nicolau e Santo Antão, que no século XIX dariam origem, junto com novas achegas de Sotavento e de Portugal, à variedade de São Vicente. Imagine que cheguei a imaginar, nestas duas ilhas, uma nova crioulização das variedades do Sotavento levada a cabo por portugueses vindos da Madeira!
Enfim, um vasto campo de pesquisa para novas gerações que teriam de começar relendo com atenção os excelentes capítulos que compõem o terceiro volume da História Geral de Cabo Verde.
6. Acredita que a descrioulização é um fenómeno real?
Sempre que há convivência de duas ou mais línguas num mesmo espaço, os falantes introduzem na sua língua alterações inspiradas nas línguas concorrentes. E são normalmente as línguas de menor prestígio, se as houver, que introduzem mais alterações deste tipo.
No entanto, o conceito de descrioulização sugere que uma língua crioula que convive com a sua língua de base possa assim fundir-se nesta. Isto não pode acontecer. De um modo geral, o erro consiste em pensar que uma de duas línguas A e B que convivem possa transformar-se na outra, ou que ambas possam encontrar-se no meio. Mas os falantes que se inspiram numa outra língua para inovar têm de adaptar o que querem adotar à língua deles. Quer dizer, transformam o que 'emprestam' em algo diferente, seu. O primeiro crioulo-falante que disse qualquer coisa como N txiga di gosta d'el(cf. Mi própi, N txiga di txomadu kumunista por kauza di nha barba ku nha kabélu kunpridu, ... Manuel Veiga, Odju d’agu2009: 182/24-25), inspirando-se na perífrase verbal portuguesa chegar a fazer não introduziu uma perífrase portuguesa no crioulo, criou uma perífrase crioula porque disse txiga e não chegar, di e não a (porque não existe nenhuma preposição a no crioulo santiaguense).
O que, sim, pode acontecer é que uma das duas línguas A e B, por exemplo o crioulo, deixe de se usar e assim, pouco a pouco, se esqueça. Em Cabo Verde não vejo este perigo.
7. Como vê o futuro da língua cabo-verdiana?
Sou extremamente otimista a este respeito.
Não há raças humanas. Na realidade, todos os povos têm uma origem multi-étnica, mas os cabo-verdianos são mais conscientes deste facto do que outras nações. Não correm o risco de invocar uma raça (inexistente) para se sentirem cabo-verdianos. Penso que a sua identidade assenta firmemente numa pátria geograficamente bem delimitada e no facto de todos falarem, como língua materna, uma variedade do crioulo cabo-verdiano, a sua pátria linguística.