Ex-Reitor e matemático protagonizou a roda de conversa central da semana, com participação online da Fundação Calouste Gulbenkian. Torneio de xadrez, maratona das derivadas, quiz via Kahoot e “Café com Pi” completaram o programa do Laboratório de Matemática.
Num mundo que recua no multilateralismo, que assiste ao ressurgimento de conflitos armados e que enfrenta uma crise climática agravada pelo negacionismo, onde está a esperança? Para o Professor Paulino Fortes, a resposta é tão precisa quanto uma equação: na matemática. O ex-Reitor da Universidade de Cabo Verde e matemático com mais experiência em atividade no arquipélago foi o orador principal da roda de conversa "Matemática e Esperança", realizada esta manhã no Auditório do Edifício 8 do Campus do Palmarejo Grande, no ponto alto de uma Semana da Matemática que animou a Faculdade de Ciências e Tecnologia entre 10 e 14 de março.
Perante estudantes do 1.º e 2.º ano e os docentes, Paulino Fortes estruturou a sua intervenção em torno de uma tese provocadora: a crise atual é, na sua essência, uma crise de racionalidade, e a matemática é o maior instrumento que a humanidade possui para lhe responder. O professor lembrou que os objetivos globais de paz, saúde, educação e sustentabilidade estão quantificados e traçados na Agenda 2030 da ONU e na Agenda 2063 da União Africana, mas que o mundo vive uma "deriva" em relação a estas metas, empurrado por desigualdades crescentes, nacionalismos e uma comunicação cada vez mais emotiva.
“A Matemática é o maior património material universal da humanidade. É uma linguagem livre de ambiguidades, fundamentada na lógica. Em tempos de pós-verdade e fake news, o método axiomático e a modelação matemática são essenciais”, disse Prof. Paulino Fortes
A resposta que Paulino Fortes propôs é o que chamou de "esperança racional", uma esperança que não é crença passiva nem resignação, mas sim uma força ativa orientada para objetivos concretos, ancorada na capacidade de avaliar evidências, pensar de forma probabilística e distinguir correlação de causalidade. A educação matemática, argumentou, não serve apenas para acumular informação: serve para desenvolver o "poder matemático" dos cidadãos, essencial para que possam fazer escolhas políticas informadas e eleger decisores preparados.
A roda de conversa que se seguiu à palestra trouxe questões dos estudantes que revelaram maturidade e inquietação. Um participante perguntou como a matemática pode influenciar políticos e gestores, e Paulino Fortes respondeu que os modelos matemáticos, como os modelos climáticos, são a base de qualquer decisão política racional. Outro estudante levantou o risco do individualismo e do relativismo das redes sociais, e o professor recorreu à Teoria dos Jogos para demonstrar que a cooperação produz melhores resultados do que o egoísmo, mesmo do ponto de vista individual.
A Dra. Hermínia Cabral, representante da Fundação Calouste Gulbenkian - instituição "madrinha" e financiadora do Laboratório de Matemática da Uni-CV -, encerrou o ciclo de intervenções justificando o investimento da Fundação no ensino da matemática nos PALOP. Defendeu que a matemática é essencial para o pensamento crítico e a defesa dos regimes democráticos, e que é impossível pensar na autonomia dos países em desenvolvimento sem recursos humanos qualificados em matemática - para que deixem de ser apenas consumidores de tecnologia externa e passem a ser produtores do seu próprio conhecimento.
A Semana da Matemática, organizada pelo Laboratório de Matemática (LabMat) da Faculdade de Ciências e Tecnologia, trouxe ao campus um programa diversificado que combinou rigor académico com espírito lúdico. Desde a exibição de filmes ao torneio de xadrez, da maratona das derivadas ao quiz via Kahoot organizado por Henrique Teixeira e Joseane Correia, as atividades procuraram mostrar que a matemática é muito mais do que fórmulas num quadro, é uma forma de pensar, jogar e resolver problemas.
O Pró-Reitor para Tecnologias, Inovação e Dados da Universidade de Cabo Verde, Celestino Barros, participou no passado dia 19 de fevereiro no programa Em Debate, da TCV, sob o tema Desafio do Digital como Acelerador da Transformação em Cabo Verde. O debate contou igualmente com a participação de Hélio Varela, Especialista em Tecnologia de Informação, e de Mayra Silva, representante da Women in Tech em Cabo Verde.
Durante a sua intervenção, Celestino Barros destacou que a implementação do 5G poderá posicionar o país na vanguarda tecnológica, criando oportunidades para a inovação, competitividade e modernização dos serviços. Reconheceu, contudo, que se trata de um investimento significativo, defendendo uma articulação estratégica entre o Governo e as operadoras de telecomunicações, bem como uma implementação faseada da tecnologia como forma de minimizar custos e garantir sustentabilidade.
Outro ponto central da intervenção foi a importância da literacia digital, particularmente no contexto do ensino superior. Celestino Barros destacou o papel da Uni-CV na formação de quadros qualificados e preparados para responder aos desafios tecnológicos contemporâneos.
“A Universidade tem vindo a reforçar a sua oferta formativa na área tecnológica, disponibilizando cursos em diferentes domínios das tecnologias de informação, inovação e dados, além de promover workshops, conferências e outras iniciativas científicas que fomentam a capacitação digital da comunidade académica e da sociedade em geral.”
O Pró-Reitor evidenciou ainda o compromisso da Uni-CV com a investigação científica orientada para as necessidades concretas de Cabo Verde. Entre os exemplos mencionados, destacou o projeto kafuka, que utiliza painéis fotovoltaicos para fornecer iluminação em comunidades rurais sem acesso à eletricidade, bem como a criação de uma aplicação que permite aos agricultores, através de um telemóvel, identificar rapidamente se um inseto encontrado nas suas culturas é ou não a lagarta-do-cartucho, recebendo de imediato recomendações sobre como agir.
Ao longo do debate, Celestino Barros sublinhou que o ensino superior, aliado à inovação e a políticas tecnológicas consistentes, constitui um pilar essencial para a consolidação de um ecossistema digital mais inclusivo, competitivo e orientado para o desenvolvimento sustentável do país.
EM DEBATE - Cabo Verde: Digital como Acelerador da Transformação
A coordenação do Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade de Cabo Verde realizou, a 3 de outubro, no Auditório 102 do Edifício n.º 8 (Campus do Palmarejo Grande), um encontro com pais e encarregados de educação dos estudantes do 1.º ano, visando estreitar a comunicação e incentivar a participação nas atividades da Uni-CV.
A sessão teve caráter informativo e participativo, abrindo um espaço regular de diálogo entre a coordenação do curso e os responsáveis pela educação dos estudantes. A prioridade passa por envolver ativamente as famílias na vida académica, promovendo uma relação de proximidade que favoreça o acompanhamento dos percursos dos estudantes e a resolução célere de questões associadas à prestação do curso.
No enquadramento institucional, o Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da FCT integra a estratégia da Uni-CV de qualificação científica e profissional avançada, alinhada com necessidades do país e com padrões de ensino superior. A coordenação entende que a parceria com pais e encarregados de educação é um fator de sucesso, tanto na adaptação ao ensino universitário como na consolidação de hábitos de estudo, gestão do tempo e responsabilidade em ambientes laboratoriais e clínicos.
Durante o encontro, foram apresentados objetivos e expectativas para o 1.º ano, clarificando regras académicas, comunicação com os serviços e canais para sinalização de dificuldades. Por seu turno, os participantes puderam colocar questões e partilhar perceções, contribuindo para uma leitura mais completa dos desafios iniciais da formação médica. A coordenação destacou que a participação ativa das famílias pode ajudar a detetar precocemente obstáculos e a encaminhar soluções em articulação com docentes, serviços académicos e estruturas de apoio.
A organização sublinhou, ademais, que o aproximar às famílias tem também uma dimensão comunitária: reforça a divulgação do curso junto da sociedade cabo-verdiana, incluindo a diáspora, e potencia redes de apoio relevantes para o sucesso estudantil. A melhoria da qualidade da gestão do curso, passa por processos transparentes, comunicação clara e participação informada dos vários intervenientes.

Face ao declínio na procura dos cursos de Ciências Sociais, a universidade reestrutura a sua oferta. Para o professor Adilson Semedo, numa era dominada pela tecnologia, a capacidade de interpretar o humano nunca foi tão crucial.
A Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) lançou uma nova licenciatura em Sociologia, uma aposta estratégica para revitalizar os estudos sociais e responder às novas exigências de um mundo cada vez mais complexo e mediado pela tecnologia. A decisão surge num contexto de decréscimo de alunos na tradicional licenciatura em Ciências Sociais, uma tendência que o professor Adilson Semedo atribui a uma narrativa global que tem priorizado as ciências exatas em detrimento das humanidades.
Numa conversa que marcou a estreia do podcast sobre a oferta formativa da Uni-CV, o docente, investigador e sociólogo defendeu que, paradoxalmente, a importância da Sociologia cresce à medida que avança a inteligência artificial. “Num futuro onde a interação com máquinas é crescente, a sociologia é crucial para a interpretação das culturas e dos códigos sociais, algo que as máquinas não podem fazer”, afirmou Semedo.
A nova licenciatura foi desenhada com um currículo robusto, que alia uma forte componente teórica e metodológica a um foco em temas prementes da realidade cabo-verdiana, incluindo as dinâmicas sociais geradas pela tecnologia. O curso, que conta com um corpo docente maioritariamente composto por doutorados, visa formar profissionais com uma visão crítica, capazes de atuar no ensino, na investigação ou na assessoria técnica em organismos públicos e privados.
Segundo o professor, a quebra na procura dos cursos de Ciências Sociais, acentuada a partir de 2015, não se deveu a uma falta de mercado, mas a uma mudança no “imaginário académico” nacional e internacional, que passou a ver as áreas tecnológicas como as “verdadeiras ciências”. “O discurso de que não há mercado para a área é falso. A Sociologia é uma área de futuro, pois trabalha com a sociedade, que está presente em tudo”, argumentou.
Inicialmente, a licenciatura em Sociologia será lecionada no campus da Praia, com a ambição de se expandir a outros polos.