Embaixador Sanjeev Jain entregou obras que abrangem filosofia, política, cinema e culinária indiana, consolidando dois anos e meio de cooperação entre a diplomácia indiana e a universidade pública cabo-verdiana.
Uma coleção de livros sobre filosofia, política, cinema e gastronomia indianas chegou esta segunda-feira, 23 de março, à Mediateca da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), pelas mãos do embaixador da Índia em Cabo Verde, Sanjeev Jain, numa cerimónia que selou mais de dois anos de aproximação diplomática e académica entre os dois países. O espaço, batizado de “Canto da Índia”, passa a reunir obras que vão desde literatura infantil até ensaios sobre a civilização milenar indiana, um acervo que a comunidade académica poderá consultar gratuitamente.
A cerimónia decorreu na Mediateca, Campus do Palmarejo Grande, e contou com a presença do Reitor José Arlindo Barreto, da Pró-Reitora para as áreas de Política Estudantil, Social e Extensão, Fátima Fernandes, da Diretora do Serviço de Documentação e Edições, Eliane Semedo do Administrador-Geral, Iderlindo de Pina e de membros da equipa reitoral.
O Reitor José Arlindo Barreto abriu a sessão com um agradecimento pessoal ao embaixador, sublinhando que a doação transcende o valor material dos exemplares. “Estes livros têm muito mais do que o valor material. É o símbolo dessa amizade, dessa confiança que tem na instituição e, sobretudo, dessa aproximação que procura com Cabo Verde, com o povo cabo-verdiano”, frisou José Arlindo Barreto.
Dos livros aos frutos: uma cooperação que dá frutos literais
A doação literária não é o único fruto da relação entre a Embaixada da Índia e a Uni-CV. O Reitor recordou que, no âmbito desta parceria, foi criado um espaço de plantação no Campus do Palmarejo Grande, inspirado numa iniciativa indiana que visou plantar mais de mil milhões de árvores em apenas um ano. O projeto, lançado em julho de 2024 durante uma visita de cortesia do embaixador à universidade, já começou a produzir resultados concretos: as romanzeiras já dão frutos, alguns, brincou Barreto, provavelmente já saboreados pelos estudantes, enquanto os coqueiros, de maturação mais lenta, continuam a crescer.
Cinco mil anos de civilização em livros
O embaixador Sanjeev Jain explicou que a coleção foi pensada como uma “pequena encapsulação” do que a Índia pode oferecer ao mundo. Com uma civilização de cinco milénios, a seleção abrange literatura infantil e adulta, filosofia, política, cinema, com destaque para Bollywood, particularmente popular entre o público cabo-verdiano, e gastronomia indiana.
O diplomata indiano foi direto quanto ao propósito da doação: ajudar os estudantes a verem a Índia para além dos estereótipos. “Todos os países têm os seus estereótipos e as pessoas carregam-nos, não há nada de errado nisso. Mas é também nosso dever permitir que vejam de uma perspetiva diferente”, afirmou Jain, perante a equipa reitoral, dirigentes e demais convidados.
“A amizade não é uma questão de cargos. Começou com os cargos, mas permanece”, disse Sanjeev Jain, Embaixador da Índia em Cabo Verde.
Jain prometeu complementar o acervo com materiais pedagógicos adicionais, incluindo documentários sobre a história e a cultura indianas, em consulta com a universidade. O Reitor, por seu turno, sugeriu a inclusão de obras sobre Mahatma Gandhi, proposta imediatamente acolhida pelo embaixador.
Uma relação em construção
A doação inscreve-se numa trajetória de aproximação entre a Índia e a Uni-CV que ganhou impulso com a visita de cortesia do embaixador Jain ao Reitor, em julho de 2024, no Campus do Palmarejo Grande. Nesse encontro, o diplomata manifestou o interesse da Índia em estabelecer parcerias estratégicas nas áreas de ciências agrárias e alterações climáticas, propondo o desenvolvimento de tecnologias agrícolas resilientes a climas áridos, um desafio partilhado por ambos os países.
Desde então, a cooperação materializou-se em várias frentes: a proposta inicial de doação de 100 livros de autores indianos, o projeto de plantação de árvores no campus e, agora, a inauguração do «Canto da Índia» como espaço permanente na Mediateca.
O Pró-Reitor para Tecnologias, Inovação e Dados da Universidade de Cabo Verde, Celestino Barros, participou no passado dia 19 de fevereiro no programa Em Debate, da TCV, sob o tema Desafio do Digital como Acelerador da Transformação em Cabo Verde. O debate contou igualmente com a participação de Hélio Varela, Especialista em Tecnologia de Informação, e de Mayra Silva, representante da Women in Tech em Cabo Verde.
Durante a sua intervenção, Celestino Barros destacou que a implementação do 5G poderá posicionar o país na vanguarda tecnológica, criando oportunidades para a inovação, competitividade e modernização dos serviços. Reconheceu, contudo, que se trata de um investimento significativo, defendendo uma articulação estratégica entre o Governo e as operadoras de telecomunicações, bem como uma implementação faseada da tecnologia como forma de minimizar custos e garantir sustentabilidade.
Outro ponto central da intervenção foi a importância da literacia digital, particularmente no contexto do ensino superior. Celestino Barros destacou o papel da Uni-CV na formação de quadros qualificados e preparados para responder aos desafios tecnológicos contemporâneos.
“A Universidade tem vindo a reforçar a sua oferta formativa na área tecnológica, disponibilizando cursos em diferentes domínios das tecnologias de informação, inovação e dados, além de promover workshops, conferências e outras iniciativas científicas que fomentam a capacitação digital da comunidade académica e da sociedade em geral.”
O Pró-Reitor evidenciou ainda o compromisso da Uni-CV com a investigação científica orientada para as necessidades concretas de Cabo Verde. Entre os exemplos mencionados, destacou o projeto kafuka, que utiliza painéis fotovoltaicos para fornecer iluminação em comunidades rurais sem acesso à eletricidade, bem como a criação de uma aplicação que permite aos agricultores, através de um telemóvel, identificar rapidamente se um inseto encontrado nas suas culturas é ou não a lagarta-do-cartucho, recebendo de imediato recomendações sobre como agir.
Ao longo do debate, Celestino Barros sublinhou que o ensino superior, aliado à inovação e a políticas tecnológicas consistentes, constitui um pilar essencial para a consolidação de um ecossistema digital mais inclusivo, competitivo e orientado para o desenvolvimento sustentável do país.
EM DEBATE - Cabo Verde: Digital como Acelerador da Transformação
A coordenação do Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade de Cabo Verde realizou, a 3 de outubro, no Auditório 102 do Edifício n.º 8 (Campus do Palmarejo Grande), um encontro com pais e encarregados de educação dos estudantes do 1.º ano, visando estreitar a comunicação e incentivar a participação nas atividades da Uni-CV.
A sessão teve caráter informativo e participativo, abrindo um espaço regular de diálogo entre a coordenação do curso e os responsáveis pela educação dos estudantes. A prioridade passa por envolver ativamente as famílias na vida académica, promovendo uma relação de proximidade que favoreça o acompanhamento dos percursos dos estudantes e a resolução célere de questões associadas à prestação do curso.
No enquadramento institucional, o Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da FCT integra a estratégia da Uni-CV de qualificação científica e profissional avançada, alinhada com necessidades do país e com padrões de ensino superior. A coordenação entende que a parceria com pais e encarregados de educação é um fator de sucesso, tanto na adaptação ao ensino universitário como na consolidação de hábitos de estudo, gestão do tempo e responsabilidade em ambientes laboratoriais e clínicos.
Durante o encontro, foram apresentados objetivos e expectativas para o 1.º ano, clarificando regras académicas, comunicação com os serviços e canais para sinalização de dificuldades. Por seu turno, os participantes puderam colocar questões e partilhar perceções, contribuindo para uma leitura mais completa dos desafios iniciais da formação médica. A coordenação destacou que a participação ativa das famílias pode ajudar a detetar precocemente obstáculos e a encaminhar soluções em articulação com docentes, serviços académicos e estruturas de apoio.
A organização sublinhou, ademais, que o aproximar às famílias tem também uma dimensão comunitária: reforça a divulgação do curso junto da sociedade cabo-verdiana, incluindo a diáspora, e potencia redes de apoio relevantes para o sucesso estudantil. A melhoria da qualidade da gestão do curso, passa por processos transparentes, comunicação clara e participação informada dos vários intervenientes.

Face ao declínio na procura dos cursos de Ciências Sociais, a universidade reestrutura a sua oferta. Para o professor Adilson Semedo, numa era dominada pela tecnologia, a capacidade de interpretar o humano nunca foi tão crucial.
A Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) lançou uma nova licenciatura em Sociologia, uma aposta estratégica para revitalizar os estudos sociais e responder às novas exigências de um mundo cada vez mais complexo e mediado pela tecnologia. A decisão surge num contexto de decréscimo de alunos na tradicional licenciatura em Ciências Sociais, uma tendência que o professor Adilson Semedo atribui a uma narrativa global que tem priorizado as ciências exatas em detrimento das humanidades.
Numa conversa que marcou a estreia do podcast sobre a oferta formativa da Uni-CV, o docente, investigador e sociólogo defendeu que, paradoxalmente, a importância da Sociologia cresce à medida que avança a inteligência artificial. “Num futuro onde a interação com máquinas é crescente, a sociologia é crucial para a interpretação das culturas e dos códigos sociais, algo que as máquinas não podem fazer”, afirmou Semedo.
A nova licenciatura foi desenhada com um currículo robusto, que alia uma forte componente teórica e metodológica a um foco em temas prementes da realidade cabo-verdiana, incluindo as dinâmicas sociais geradas pela tecnologia. O curso, que conta com um corpo docente maioritariamente composto por doutorados, visa formar profissionais com uma visão crítica, capazes de atuar no ensino, na investigação ou na assessoria técnica em organismos públicos e privados.
Segundo o professor, a quebra na procura dos cursos de Ciências Sociais, acentuada a partir de 2015, não se deveu a uma falta de mercado, mas a uma mudança no “imaginário académico” nacional e internacional, que passou a ver as áreas tecnológicas como as “verdadeiras ciências”. “O discurso de que não há mercado para a área é falso. A Sociologia é uma área de futuro, pois trabalha com a sociedade, que está presente em tudo”, argumentou.
Inicialmente, a licenciatura em Sociologia será lecionada no campus da Praia, com a ambição de se expandir a outros polos.