Em palestra inaugural na Universidade de Cabo Verde, José Maria Neves anunciou a promulgação do Fundo Climático e Ambiental e apelou às universidades para transformarem os seus centros de investigação em hubs de dados oceânicos ao serviço da economia azul e da ação climática global.

Na sessão de abertura do BIN@CV, acolhida pela Uni-CV, o Presidente da República, José Maria Neves, anunciou a promulgação, na véspera, da lei que cria o Fundo Climático e Ambiental de Cabo Verde, instrumento que, segundo afirmou, permitirá mobilizar recursos internacionais e “transformar dívida em investimento” enquanto o país assume os seus compromissos externos.
Falando na dupla condição de Chefe de Estado e de Patrono da Aliança da Década do Oceano da UNESCO, na palestra intitulada “O papel de Cabo Verde, nação climática global dos oceanos”, o Presidente recordou que o arquipélago tem 403 km² de território terrestre, mas cerca de 800 mil km² de mar, área que poderá aproximar-se de um milhão de quilómetros quadrados caso seja aceite a extensão da plataforma continental em discussão nas Nações Unidas. “A nossa dimensão territorial não é assim tão pequena”, sublinhou, defendendo que Cabo Verde tem condições para “ser efetivamente um grande país” no domínio dos oceanos.
José Maria Neves alertou que os pequenos Estados insulares em desenvolvimento e as regiões ultraperiféricas são os que mais sofrem com as alterações climáticas, apesar de serem os que menos contribuem para elas, e defendeu que Cabo Verde tem o dever de assumir um papel “ativo e influente” na definição das agendas climáticas globais. “Não existem pequenos países perante a emergência climática, mas apenas Estados com diferentes capacidades de liderança”, afirmou.
Numa intervenção em que valorizou também a ideia de Macaronésia como espaço de cooperação entre os arquipélagos atlânticos, recordando que a Diocese de Santiago de Cabo Verde, criada em 1533, foi a primeira da África subsariana, o Presidente desafiou a Rede BIN, a Uni-CV e a Universidade do Porto a transformarem o encontro num ponto de partida para uma “diplomacia do conhecimento”. Sustentou que muitas falhas de inovação no país e nas regiões ultraperiféricas resultam “não de falta de vontade, mas de falta de dados precisos, locais e acessíveis”, e apelou à transformação dos centros de investigação e universidades em hubs de processamento de dados oceânicos ao serviço das empresas e das start-ups.
Saudou ainda a presença da Universidade do Porto e da Universidade da Madeira na Cidade da Praia, evocando a sua recente visita à FEUP, no âmbito da iniciativa Presidência na Diáspora, como exemplo do tipo de cooperação académica e científica que pretende ver reforçado. Destacou o projeto Génesis, sobre infraestruturas hídricas críticas, como exemplo de inovação técnica capaz de responder a crises climáticas, e anunciou que a V Conferência Internacional sobre Oceanos terá lugar em julho na Ilha da Boa Vista, em estreita cooperação com a UNESCO.
“Cabo Verde está pronto para continuar a ser este laboratório vivo”, concluiu o Chefe de Estado, pedindo aos participantes resultados “mensuráveis e replicáveis” dos próximos dois dias de trabalhos.
