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Em representação da Magnífica Reitora Astrigilda Silveira, a Vice-Reitora para a Área Académica da Universidade de Cabo Verde, Professora Elga Carvalho, foi a primeira oradora da cerimónia oficial de abertura do Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica, esta quinta-feira, defendendo que, “num tempo em que o mundo parece erguer novos muros físicos, culturais e simbólicos, Cabo Verde escolhe continuar a construir pontes”.

A cerimónia decorreu no campus da Uni-CV, perante o Presidente da República, José Maria Neves, e uma plateia de ministros, diplomatas, académicos e representantes de organizações internacionais reunidos sob o lema “Edificar Pontes, Construir um Futuro Melhor”. O encontro prolonga-se até sábado, 30 de maio, na Praia.

Crioulidade como “lição de Humanidade”

Na sua intervenção, Elga Carvalho enquadrou as crioulidades atlânticas para além da memória histórica, descrevendo-as como “uma poderosa lição de Humanidade, convivência e futuro partilhado”. A Vice-Reitora recordou que o Atlântico foi “mais do que um espaço geográfico”, tendo-se tornado “um território de contactos, conflitos, mestiçagens e criações culturais que moldaram profundamente o mundo moderno”.

Cabo Verde, sublinhou, ocupa nesse mapa um lugar singular: um arquipélago que “transformou a sua posição geográfica e a diversidade dos povos numa riqueza cultural e humana única”, e cuja identidade nasceu “aberta, mestiça, resiliente e profundamente dialogante”.

Convocando o pensador martinicano Édouard Glissant e a sua “poética da relação”, a académica defendeu que “as culturas não são fixas, mas dinâmicas e em constante transformação”. E, citando Amílcar Cabral, lembrou que “a cultura é simultaneamente fruto da história de um povo e determinante da história”, espaço de “resistência, dignidade e emancipação humana”.

Responsabilidade da academia

Elga Carvalho atribuiu às universidades a responsabilidade de “investigar criticamente estas experiências históricas, preservar memórias, valorizar patrimónios culturais e promover cooperação científica transatlântica”, reafirmando o compromisso da Uni-CV de se consolidar como “espaço internacional de investigação e diálogo sobre os estudos atlânticos, as diásporas e as crioulidades contemporâneas”.

Na sequência da intervenção da Vice-Reitora, o Presidente da República, José Maria Neves, declarou aberto o encontro com um apelo à valorização das línguas crioulas e ao reforço da cooperação entre povos. “É esta a mensagem que Cabo Verde quer partilhar com o mundo hoje: uma mensagem de memória, diversidade, diálogo e futuro”, afirmou o Chefe de Estado, defendendo a necessidade de promover “um mundo desracializado, sem violência e mais humano”.

Elga Carvalho terminou a intervenção fiel ao espírito do encontro, evocando a vocação histórica de Cabo Verde como “ponte entre continentes, entre culturas, entre memórias, entre povos”, e assumindo, em língua materna, o compromisso de construção coletiva de “un futuru mas midjor pa tudu nós”.

O Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica reúne até sábado conferencistas de Cabo Verde, Angola, Brasil, Estados Unidos, França, Guiné-Bissau, Senegal, São Tomé e Príncipe, Curaçau, Guadalupe e da Ilha da Reunião, além de representantes da ONU, UNESCO, CPLP, Francofonia e AOSIS. O programa culmina com a leitura pública da “Declaração da Praia” e o concerto “Nôs tud nôs ê kriol”, na Rua Pedonal do Plateau.

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