Conferência inaugural, no Auditório 101 do Campus do Palmarejo Grande, propôs à escola cabo-verdiana um caminho para ir além do “texto como pretexto”.

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A Conferência de Abertura do III Simpósio Internacional de Literatura Infantil e Juvenil de Cabo Verde, realizada na segunda-feira (25), no Auditório 101 do Edifício 8 do Campus do Palmarejo Grande, foi proferida pela Professora Renata Junqueira de Souza, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), sob o título “Estratégias de Leitura: percurso pessoal, histórico e investigativo”. Perante um auditório repleto de docentes, estudantes, escritores e mediadores, a conferencista defendeu o ensino explícito das estratégias metacognitivas de compreensão leitora como condição para que a escola deixe de ensinar apenas a decifrar e passe a ensinar, de facto, a compreender.

A mesa foi presidida pela Professora Karina Gomes, coordenadora do Simpósio, que sublinhou que a presença da conferencista era ambicionada desde a primeira edição do encontro. A apresentação esteve a cargo da investigadora Adriana Jesuíno Francisco, que situou a literatura como “ponte entre crianças e sonhos, entre o ato de ler e o ato de compreender o mundo”.

Do pretexto à compreensão

Partindo da sua experiência de pós-doutoramento na University of British Columbia, em Vancouver, Renata Junqueira recordou práticas em que a literatura infantil estrutura projetos interdisciplinares de leitura, escrita, ciências e artes. De regresso ao Brasil, confrontou-se com um cenário distinto: o texto literário continuava a ser usado, em sala de aula, como simples pretexto para exercícios de localização de informação explícita. “A criança apenas copia e cola a resposta”, observou. Foi a partir desse diagnóstico que, em 2006, com apoio da FAPESP, o seu grupo iniciou o desenvolvimento de uma metodologia para o ensino sistemático da compreensão literária.

Quatro condições e sete estratégias

No centro da proposta está a metacognição: o leitor estratégico mantém uma “conversa interior” com o texto e monitoriza a sua própria compreensão. A conferencista identificou quatro condições para essa compreensão, ativar os conhecimentos prévios, conhecer o género textual, compreender o contexto e o objetivo de leitura e aplicar as estratégias de forma ativa, e sete estratégias trabalhadas sistematicamente: ativação do conhecimento prévio, inferência, visualização, conexões (texto-texto, texto-leitor e texto-mundo), perguntas ao texto, sumarização e síntese.

Cada estratégia foi ilustrada com obras de literatura infantil, de Não, David!, de David Shannon, a O Vestido de Laura, de Cecília Meireles, e O Carteiro Chegou, de Janet e Allan Ahlberg. A formulação de “perguntas magras e perguntas gordas” - distinguindo as que se respondem na superfície do texto das que exigem inferência - foi apresentada como instrumento para deslocar o foco da verificação para a interpretação. O papel do professor, num percurso de inspiração vigotskiana, é o de explicitar em voz alta o seu próprio processo de leitura, antes de abrir espaço à prática colaborativa e à leitura autónoma.

Resultados e níveis de compreensão

A conferência apresentou resultados da aplicação da metodologia em escolas brasileiras. No município de São Paulo, o índice de alunos do 5.º ano com aprendizagem adequada na avaliação do SAEB subiu de 67%, em junho, para 79% em outubro. Numa investigação longitudinal em turmas de 1.º ano, doze das vinte e cinco crianças da turma onde as estratégias foram ensinadas atingiram o nível alfabético de escrita ao fim de quatro meses, contra quatro na turma de controlo.

No debate, Renata Junqueira identificou três níveis de compreensão do leitor: o gramatical, centrado na informação explícita; o semântico, que mobiliza o sentido das palavras na obra; e o prático ou contextual, que convoca o contexto histórico de produção do texto. “Contextualizar”, concluiu, “é mais do que informar quem escreveu o livro: é propiciar elementos para que a compreensão profunda aconteça.”

A Conferência de Abertura inaugurou três dias de trabalhos que reúnem, no Campus do Palmarejo Grande, investigadores, escritores e mediadores de leitura de vários países da CPLP, em torno do tema “Literatura Infantil e Juvenil em Língua Portuguesa: Infâncias, Circulações e Poéticas em Contextos Plurais”.

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