Em conferência na Uni-CV, antigo Ministro da Educação alertou que as novas tecnologias não substituem o professor e defendeu maior valorização do ensino básico, domínio da língua de ensino e reforço das competências pedagógicas.

feliz-dia-dos-professores-cabo-verdianos-43_55226103248_o_97900-artguru_af4a7.jpg

A celebração do Dia do Professor Cabo-verdiano, assinalada esta quinta-feira, 23 de abril, na Mediateca da Universidade de Cabo Verde, foi também marcada por uma reflexão exigente sobre os desafios da educação no século XXI e sobre o lugar da formação de professores no futuro do país.

A conferência central do programa esteve a cargo de Victor Borges, antigo Ministro da Educação, que apresentou a comunicação intitulada “Desafios da Educação para o Século XXI e da Formação de Professores para o Século XXI”. A sessão reuniu docentes, estudantes, dirigentes universitários, professores aposentados e membros da comunidade académica.

Logo no início da intervenção, Victor Borges advertiu que o Dia do Professor não deve ser apenas um momento de celebração. Deve ser também, afirmou, uma oportunidade de autoavaliação crítica, sem complacência, sobre o percurso feito, os problemas persistentes e as mudanças necessárias no sistema educativo cabo-verdiano.

Para o conferencista, a qualidade da educação continua a depender, em larga medida, da qualidade dos professores. “As sociedades valem pelos professores que têm”, afirmou, sublinhando que a educação deve ser simultaneamente de qualidade e relevante para o desenvolvimento do país. Na sua perspetiva, não basta formar cidadãos com domínio técnico ou académico. É necessário que essa formação responda aos desafios concretos de Cabo Verde.

Um dos pontos centrais da conferência foi o papel do professor num contexto dominado por novas tecnologias, excesso de informação e transformação dos modos de aprendizagem. Victor Borges rejeitou a ideia de que a tecnologia torne o professor dispensável. Pelo contrário, defendeu que a modernidade exige ainda mais do docente.

Na sua leitura, o professor deixa de ser apenas “dono e distribuidor de conhecimento” para passar a assumir funções mais complexas: orientar, enquadrar, incentivar, motivar e ajudar os estudantes a interpretar criticamente a informação disponível. Num “mar de informações”, advertiu, os alunos podem facilmente perder-se sem mediação pedagógica.

Victor Borges dedicou particular atenção à formação de professores do ensino básico, que considerou um dos pontos mais sensíveis do sistema educativo. Criticou a tendência de se olhar para este nível de ensino como um segmento menos valorizado e defendeu que é precisamente aí que se decide a qualidade futura do percurso escolar dos alunos.

Sem uma base sólida, afirmou, as fragilidades do ensino básico acabam por contaminar o ensino secundário, o ensino superior e a vida profissional. Comparou o ensino básico aos alicerces de uma casa: sem fundações firmes, não é possível sustentar os pisos superiores.

O antigo ministro questionou ainda modelos de formação excessivamente teóricos e afastados da prática real das escolas. Defendeu que os futuros professores devem ser preparados para aquilo que vão efetivamente fazer em sala de aula, com maior domínio do currículo, das metodologias de ensino, dos materiais didáticos e das condições concretas em que irão trabalhar.

Na sua intervenção, recorreu a exemplos da sua experiência no setor educativo para mostrar que conhecimento científico, por si só, não garante competência pedagógica. Para Victor Borges, saber uma matéria é diferente de saber ensiná-la. Por isso, a formação docente deve desenvolver competências didáticas, capacidade de comunicação, leitura crítica do contexto escolar e domínio das práticas de ensino.

Outro eixo destacado foi a língua portuguesa, enquanto língua oficial de ensino. Victor Borges considerou que não é aceitável que um professor conclua a sua formação sem domínio pleno da língua em que vai ensinar. Reconhecendo a complexidade linguística cabo-verdiana, defendeu que a escola deve ajudar os alunos a consolidar competências na língua portuguesa, sem transformar essa questão num conflito com a língua cabo-verdiana.

A literacia digital foi igualmente apontada como uma competência incontornável. Para o conferencista, os professores devem estar preparados para dialogar com estudantes que, muitas vezes, já têm acesso a informações e ferramentas que o próprio docente pode não dominar. Isso exige humildade, atualização permanente e capacidade de aprender enquanto se ensina.

A sessão terminou com a ideia de que a formação de professores não pode ser tratada como um processo fechado ou meramente administrativo. Deve ser acompanhada, avaliada e ajustada de forma contínua, com base na realidade das escolas e no desempenho dos diplomados no terreno.

Num Dia do Professor Cabo-verdiano marcado por homenagens e memória institucional, a conferência de Victor Borges introduziu uma nota de exigência: celebrar os professores implica também discutir, com frontalidade, as condições, os currículos e os modelos de formação que determinam a qualidade da educação em Cabo Verde.

Don't have an account yet? Register Now!

Sign in to your account