Numa cerimónia marcada pelo juramento solene e pela passagem da lamparina, a Universidade de Cabo Verde entregou ao país mais uma geração de enfermeiros e deixou-lhes uma advertência sobre inteligência artificial, ética e o lugar da pessoa no centro do cuidado.
Os novos enfermeiros formados pela Universidade de Cabo Verde entram na profissão num tempo em que a inteligência artificial está a redefinir a forma como se prestam cuidados de saúde, as alterações climáticas colocam novos desafios à saúde pública e as mudanças geopolíticas se repercutem nos sistemas de saúde e na mobilidade das populações. O aviso foi deixado pela vice-reitora para a Área Académica,Elga Carvalho, no encerramento da cerimónia de juramento da 15.ª turma de licenciatura em Enfermagem, que decorreu ontem, terça-feira, 28 de julho, no Centro de Convenções do Campus do Palmarejo Grande.

O conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico continuarão a ser essenciais, sustentou a responsável, mas por si só não bastam. Sem uma base ética sólida, alertou, o conhecimento pode deixar de servir a humanidade e passar a ser um instrumento de atrocidade.
“O maior desafio deste século não será apenas tecnológico. Será sobretudo humano”, Elga Carvalho, vice-reitora para a Área Académica da Uni-CV
A tecnologia poderá apoiar as decisões clínicas, acrescentou, mas nunca substituirá a empatia, o julgamento clínico, a assunção de responsabilidades e o compromisso humano que distingue um enfermeiro competente. Num país insular e de recursos limitados, defendeu, o maior património não são os recursos naturais, mas o capital humano, pessoas capazes de assumir o controlo do seu destino, numa ideia que atribuiu a Nelson Mandela.
A vice-reitora pediu ainda aos finalistas coragem para dizer não e coragem para liderar mudanças onde quer que venham a exercer, lembrando que dizer sim é sempre o caminho mais fácil.
A coluna vertebral do sistema de saúde
Antes, na abertura da sessão, a pró-reitora para os Estudantes, Cultura Académica e Vida Universitária, Elvira Correia, tinha classificado o desempenho profissional dos enfermeiros como a coluna vertebral de qualquer sistema de saúde e um suporte determinante para o desenvolvimento social e económico do país.
Dirigindo-se aos finalistas, afirmou que o trabalho que vão desenvolver será muitas vezes a linha que separa o desespero da esperança para milhares de cabo-verdianos, de Santo Antão à Brava, e que o país precisa que sejam os melhores da sua geração. Deixou-lhes um apelo à excelência em cada turno, em cada procedimento e em cada olhar dirigido a um doente.
A presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Carina Fernandes, sublinhou por seu lado que a formação recebida combinou saber científico, competências técnicas e valores humanos, numa profissão em que a precisão dos gestos conta tanto quanto a ternura das palavras. Apelou a que os novos profissionais levem aos cuidados de saúde uma visão comprometida com a equidade e com o acesso, nas comunidades urbanas, rurais e insulares.
Já a coordenadora do Grupo Disciplinar de Enfermagem, Odete Mota, recordou aos estudantes a expressão que os acompanhou ao longo do último ano lectivo: nunca esquecer de colocar a cereja no topo do bolo. As competências técnicas são fundamentais, explicou, mas são a empatia, a disponibilidade e o respeito que fazem a diferença na vida das pessoas. Reafirmou que o centro da enfermagem é, e continuará a ser, a pessoa.
O juramento e a passagem da lamparina
O momento mais solene da cerimónia foi o juramento, escrito a partir do legado de Florence Nightingale, em que os finalistas se comprometeram a dedicar a vida profissional ao serviço da humanidade, a respeitar a dignidade e os direitos da pessoa humana, a guardar os segredos que lhes forem confiados e a não praticar actos que ponham em risco a integridade física ou psíquica de quem cuidam.
Seguiu-se a passagem da lamparina, símbolo da luz do conhecimento, da esperança e do compromisso com o cuidar. O estudante do quarto ano Denilson Martins entregou-a a Jeremias Moreira, do terceiro ano, que a recebeu em nome da turma seguinte. Ao entregar a chama, os finalistas não passaram apenas uma luz, mas também a responsabilidade de a preservar.

Em representação dos finalistas, Denilson Martins descreveu um percurso exigente, feito de incertezas, esforço e superação, e afirmou que o juramento representa mais do que o fim de uma licenciatura: representa o compromisso assumido com a dignidade e com a vida da pessoa. Érica Varela dirigiu depois o agradecimento às famílias, recordando que cada renúncia feita pelos pais abriu caminho para que os estudantes pudessem avançar.
Ensinar é caminhar ao lado
Coube à responsável de turma, Elizabete Barros, homenageada pelos estudantes no decurso da cerimónia, encerrar a intervenção dos docentes. Disse que aquilo de que mais se recordará não são as classificações nem os trabalhos realizados, mas as conversas de corredor, as dúvidas antes de um procedimento e os momentos em que alguns estudantes duvidaram das próprias capacidades.
“Ensinar não é caminhar à frente. É muitas vezes caminhar ao lado”, Elizabete Barros, responsável da 15.ª turma de Enfermagem.
A docente recorreu ainda ao percurso recente dos Tubarões Azuis no Mundial para ilustrar aquilo que espera dos novos enfermeiros: a coragem não consiste em nunca encontrar dificuldades, mas em continuar a acreditar quando elas surgem. Haverá dias de sucesso e dias de frustração, avisou, e em nenhum deles devem esquecer a razão pela qual escolheram a profissão.
A cerimónia contou também com um momento cultural protagonizado pela turma, incluindo um poema de homenagem aos docentes da autoria da estudante Dúnia Barros, e com a presença de representantes da Ordem dos Enfermeiros de Cabo Verde, da direcção do Centro de Investigação em Saúde, de docentes, orientadores de ensino clínico e familiares dos finalistas.