Publicada na International Journal of Islands Research, investigação de Edmir Ferreira e João Paulo Madeira analisa 27 destinos ao longo de 26 anos e confirma: distância, fuso horário e custos de transporte continuam a ditar quem chega, e quem fica de fora.

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Num mundo em que basta um clique para comprar um bilhete de avião, a geografia continua, afinal, a prevalecer. É essa a conclusão central de um novo estudo assinado por dois investigadores da Escola de Negócios e Governação da Universidade de Cabo Verde, que acaba de ser publicado numa das principais revistas internacionais dedicadas aos territórios insulares.

O artigo “Connectivity and Tourism Flow in Small Island Developing States”, da autoria de Edmir Luciano dos Santos Ferreira e João Paulo Madeira, saiu no volume 6, número 1, da International Journal of Islands Research e propõe uma leitura económica e estrutural daquilo que, para arquipélagos como Cabo Verde, é uma questão de sobrevivência: a capacidade de estar ligado ao mundo.

A investigação debruça-se sobre os chamados Small Island Developing States (SIDS), um grupo de territórios que a comunidade internacional reconhece há décadas como particularmente vulneráveis à insularidade, à distância dos grandes mercados emissores, à fragilidade das infraestruturas e ao peso dos custos de transporte. Todos esses fatores, lembram os autores, condicionam a mobilidade turística e, por arrasto, o próprio ritmo do desenvolvimento económico.

Para medir esse peso, Ferreira e Madeira recorreram a um Panel Gravity Model, uma das ferramentas mais robustas da econometria aplicada ao comércio e ao turismo. O modelo cruzou dados de 27 destinos insulares e 123 países de origem entre 1995 e 2021, um quarto de século de fluxos turísticos sujeitos ao escrutínio de variáveis como distância geográfica, diferenças de fuso horário, proximidade cultural e condições macroeconómicas.

Os resultados são claros e, em alguma medida, incómodos. Distância física, distância cultural, diferenças horárias, custos elevados de transporte e acesso limitado aos mercados internacionais continuam a funcionar como travões estruturais para os pequenos Estados insulares. Os territórios que conseguem mitigar esses obstáculos, melhorando rotas aéreas, acordos bilaterais ou pontes culturais, captam, consistentemente, mais turistas.

O artigo alimenta um debate académico cada vez mais urgente sobre turismo sustentável, economia insular, integração regional e resiliência económica. Os autores defendem políticas públicas desenhadas à medida das especificidades dos SIDS, com investimento em ligações físicas, institucionais e socioculturais, e estratégias diferenciadas para destinos em estágios distintos de desenvolvimento.

A leitura é especialmente pertinente para Cabo Verde. Num país em que o turismo representa uma fatia decisiva do PIB e do emprego, perceber que a conectividade é uma variável determinante para a competitividade coloca a discussão num plano estratégico: o das rotas, dos acordos aéreos, da digitalização e da integração externa.

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