Dez jovens do curso de Relações Internacionais e Diplomacia viveram seis meses entre a Galiza, o Porto e Itália. Regressaram diferentes. Esta é a história deles.

Quando Djemisa Patrícia Barros Pereira pousou em Madrid, a caminho de Santiago de Compostela, a primeira coisa que lhe aconteceu foi uma lição de diplomacia involuntária. Perdida com as malas, tentou pedir ajuda em inglês. A resposta do funcionário foi seca e certeira: “Estás em Espanha, fala espanhol.” Nesse momento, conta Djemisa, percebeu que já estava longe. “Já estás aqui, agora estás longe, não tens ninguém para te proteger e estás por ti só.”
Entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026, dez estudantes do 3.º ano de Relações Internacionais e Diplomacia da Universidade de Cabo Verde viveram aquilo que os manuais não conseguem ensinar: a experiência de ser cabo-verdiano no mundo. Espalharam-se por cinco universidades em três países, Espanha, Portugal e Itália, e regressaram (quase todos) com um olhar diferente sobre si mesmos e sobre o país que deixaram para trás.
A Galiza que já conhece Cabo Verde
Há algo de poético no facto de seis dos dez estudantes terem ido para a Galiza. A ligação entre esta região espanhola e Cabo Verde não é nova. Em Burela, pequena vila da costa cantábrica, vive uma das comunidades cabo-verdianas mais antigas de Espanha, pescadores que, nas décadas de 70 e 80, atravessaram o Atlântico em busca de trabalho e ficaram. As universidades de Santiago de Compostela, Coruña e Vigo mantêm acordos de cooperação com a Uni-CV que tornam estas pontes possíveis. Não se trata apenas de intercâmbio académico, é a continuação de uma história partilhada.

Para Melissa Almeida, que foi sozinha para a Universidade da Coruña, a visita a Burela teve um sabor especial. “Eu estava há muitos meses sem conviver no meio de cabo-verdianos”, recorda. “Estar aí no meio deles, conversando, rindo, foi totalmente inspirador.” Melissa chegou a Ferrol sem conhecer ninguém, a primeira vez que viajava sozinha, e deparou-se com uma realidade que nunca tinha vivido: “Estar num país novo, sem amigos. Era tudo novo para mim.”
“A mobilidade me ensinou a sair da minha zona de conforto, a tomar as minhas próprias decisões em momentos críticos e a superar os meus desafios. O que aprendemos nas aulas de línguas é totalmente diferente na prática. O modo que as pessoas falam, o modo que as pessoas vivenciam, é totalmente diferente. Vi que não sabia quase nada do que aprendia na sala,” disse Melissa Almeida.
Em Santiago de Compostela, Djemisa, Rosete Moreira e a sua irmã Rosali Moreira partilharam a mesma cidade, mas viveram experiências muito distintas. Djemisa descobriu na mobilidade uma palavra que agora usa para se definir: autodeterminação.

“Trouxe na bagagem a autodeterminação. Vi-me como uma pessoa realmente independente. Construir essa personalidade num ambiente internacional, com pessoas que nem imaginavas encontrar, pessoas da Palestina, da Jordânia, de lugares que para nós, de Cabo Verde, parecem muito longe, mostra-nos que a autodeterminação seria o termo para me definir neste momento,” Djemisa Pereira.
Djemisa fala com orgulho do momento em que percebeu que sabia explicar Cabo Verde ao mundo. “Encontramos pessoas que não sabem o que é Cabo Verde, não sabem o que é um arquipélago, o que é um país insular. Poder explicar isso, e saber explicar, mostra-nos que estamos a fazer esse papel de estudante internacional a representar Cabo Verde.”
O mesmo orgulho sentiu Melissa na Coruña, onde um professor se revelou particularmente interessado em Cabo Verde. “Não sei se adorava os cabo-verdianos ou era obcecado”, brinca. “Ele sempre me tratava diferente e queria que eu falasse mais sobre o meu país. Até me deu um trabalho para falar na frente de todos os colegas sobre Cabo Verde, sobre a vida aqui, como é realmente.”
A solidão e a superação
Nem tudo foram mares e rosas. Rosete Moreira é honesta sobre o preço da distância. O momento que marcou a partida foi no aeroporto: “Quando eu estava a caminhar pela porta de embarque, virei-me para trás e vi a minha família a ficar cada vez mais longe. Percebi que, a partir daquele momento, tudo era por minha conta.”

Os primeiros meses em Santiago de Compostela foram duros. Apesar de ter a irmã Rosali na mesma cidade, viviam em espaços separados. «Praticamente ficava sozinha em casa e senti-me quase deprimida nos primeiros meses», admite. A salvação veio com o tempo e com a língua: «Comecei a arranjar alguns amigos perto de mim que falavam espanhol, comecei a pôr a língua em prática e as dificuldades começaram a desaparecer.»
“Existem duas Rosettes. Antes, eu tinha uma mente um pouquinho mais fechada, via as coisas de uma forma mais conservadora. Não aceitava todos os tipos de ideias; se estivesse num debate, preferia ficar com a minha opinião. Depois desta mobilidade, tive a oportunidade de ter a mente mais aberta, com uma visão mais ampla sobre vários temas e tópicos que são debatidos internacionalmente.”
A sala de aula foi outro choque. Rosete recorda as primeiras classes em Santiago: “Os alunos eram muito participativos, a dar opiniões e a falar sobre o que pensavam de forma livre. Eu não sabia como interagir daquela forma.” Mas o desconforto inicial transformou-se em crescimento: “Com o tempo, consegui formar a minha própria opinião e ter os meus próprios argumentos para qualquer tema.”
Da teoria à prática: ver o mundo com olhos de Relações Internacionais
Para quem estuda relações internacionais em Cabo Verde, um arquipélago sem fronteiras terrestres, a meio do Atlântico, ver a geopolítica europeia de perto tem um impacto singular. Djemisa recorda o efeito de conhecer a “fronteira tripla” durante as suas viagens: “Ver como a geografia está implementada territorialmente, ainda mais vindo de Cabo Verde, onde não temos fronteiras territoriais ligadas a um continente, é muito enriquecedor.”
Termos que antes eram abstratos, internacionalização, multiculturalismo, ganharam corpo. “Ver isso na prática, presenciar isso, molda um estudante”, explica Djemisa. “Fomos como estudantes para aprender e evoluir. Ver na prática o que costumávamos estudar na sala em Cabo Verde molda-nos como estudantes.”
Porto e Veneza: mesma língua, outro mundo
No Porto, Hemily Priscila Fernandes e Dylan Da Graça mergulharam no ambiente académico de uma das universidades mais prestigiadas de Portugal, um país onde a língua é a mesma, mas os desafios de adaptação não deixam de existir. Em Veneza, Emanuel Sá Nogueira e Robson Ricardo Fonseca viveram a experiência mais radical de imersão: a Ca' Foscari University, uma das mais antigas de Itália, numa cidade onde se navega em vez de se caminhar, algo que qualquer cabo-verdiano compreende de forma diferente.
Na Universidade de Vigo, Aicha Vasconcelos e Benedita Alves Balde continuam a viver a mobilidade, são as únicas que ainda não regressaram. A sua estadia prolonga-se até junho de 2026, o que lhes permite uma imersão mais profunda na realidade académica galega.
O conselho para quem vem a seguir
Perguntámos aos estudantes o que diriam a um caloiro da Uni-CV que sonha com a mobilidade. As respostas convergem num ponto: prepara-te antes de partires.
Djemisa é direta: “Investir nas línguas. A Uni-CV dá-nos muitas oportunidades - testes de proficiência gratuitos, escolas de verão. A mobilidade é para todos, não só para os estudantes de Relações Internacionais e Diplomacia. Mas sem línguas, é muito mais difícil.”
Melissa complementa: “Procure investir nas suas notas. Às vezes dizem que as notas não são importantes, mas são sim. E procure viver uma vida além da casa-universidade: eventos, workshops, voluntariado.”
Rosete acrescenta uma dimensão mais estratégica: “O principal é definir os seus objetivos para saber com que propósito irá realizar a mobilidade. Dedique tempo a atividades de voluntariado e extracurriculares. Sendo obrigatórias ou não, serão uma grande vantagem.”
O regresso
Oito dos dez já estão de volta a Cabo Verde. Aicha e Benedita continuam em Vigo até junho, prolongando uma experiência que os seus colegas já completaram. Todos trazem, ou trarão, mais do que créditos europeus: trazem uma visão ampliada do que significa fazer diplomacia num mundo interligado.
Rosete resume a mobilidade com uma frase que dispensa comentário: “Foi uma das maravilhas da minha vida. Tive a oportunidade de expressar a minha própria identidade num ambiente onde não havia muitas pessoas como eu. Tive a oportunidade de ser eu mesma, sendo única no meio de tantas pessoas.”
Djemisa acrescenta: “A observação é muito importante, porque ao observar, acabas por construir uma personalidade e uma forma de ver e interagir com o mundo ao sair da nossa zona de conforto.”
A Universidade de Cabo Verde, jovem e insular por geografia, prova com esta mobilidade que a sua vocação é global. Dez estudantes partiram. Dez futuros diplomatas regressaram, ou estão a regressar.