Projeto MICROCLI-MAC, financiado pela União Europeia, une a Universidade da Madeira e a Universidade de Cabo Verde numa missão para proteger quem pratica atividades físicas ao ar livre - e os turistas que chegam ao país.

cientistas_unicv_2026_bf0be.jpeg

Durante cinco dias intensos, sob o sol do arquipélago, um grupo de cientistas percorreu trilhos e caminhos de Cabo Verde equipados com sensores biométricos, monitorizando a frequência cardíaca, a temperatura corporal e o esforço físico de voluntários. O objetivo era perceber, com rigor científico, o que o calor e as condições meteorológicas extremas fazem ao corpo humano quando este se move ao ar livre.

A missão, que decorreu entre 16 e 20 de fevereiro, insere-se no projeto MICROCLI-MAC, uma iniciativa financiada pelo Programa Europeu INTERREG MAC 2021-2027 e que une duas instituições de língua portuguesa separadas por oceano: a Universidade da Madeira (UMa) e a Universidade de Cabo Verde (Uni-CV). Juntos, os dois parceiros estão a construir bases de dados sobre o impacto do microclima na atividade física em regiões insulares e tropicais.

"A parceria entre as duas instituições tem sido fundamental para o avanço das atividades de investigação que relacionam as condições meteorológicas extremas com o esforço exigido na prática de atividades físicas ao ar livre." -  Prof. Mateus Neves Andrade, Uni-CV.

12 Mil euros em tecnologia para mapear o corpo humano

No centro desta colaboração está uma transferência tecnológica: a Universidade da Madeira cedeu formalmente à Uni-CV um conjunto de equipamentos especializados avaliados em mais de 12 mil euros. O pacote inclui oito bio-módulos Zephyr, sensores corporais avançados que monitorizam em tempo real parâmetros como frequência respiratória, aceleração e postura, oito cintas torácicas, um recetor GPS e uma licença do software OmniSense 5.1.

A formalização ocorreu através de uma Declaração de Cedência de Equipamentos a País Terceiro, instrumento legal que regulamenta a transferência temporária entre os dois países. Para a Uni-CV, trata-se de um salto qualitativo na capacidade de investigação aplicada, uma das áreas onde as universidades africanas mais têm lutado para ganhar autonomia científica face às instituições europeias.

Uma aplicação que pode salvar vidas - e proteger o turismo

O projeto prevê a criação de uma Aplicação Tecnológica que integrará as relações entre variáveis ambientais (temperatura, humidade, radiação solar, altitude) e variáveis fisiológicas (esforço cardiorrespiratório, desgaste muscular, risco de desidratação), permitindo alertas personalizados para praticantes de caminhadas, trails e outras atividades ao ar livre.

Cabo Verde recebe anualmente centenas de milhares de turistas, muitos dos quais procuram o arquipélago precisamente pelo seu clima e paisagens. Trilhos como os da ilha de Santo Antão ou as encostas do Pico do Fogo, no Fogo, tornaram-se destinos de eleição para caminhantes de todo o mundo. Mas o microclima local - marcado por ventos alísios, amplitudes térmicas abruptas e intensa radiação ultravioleta - cria riscos que nem sempre são compreendidos por quem chega do exterior.

É aqui que a investigação do MICROCLI-MAC se torna estratégica. Ao mapear empiricamente estes riscos, o projeto pode vir a informar políticas públicas de saúde, guias de segurança para operadores turísticos e recomendações clínicas para populações locais mais vulneráveis.

Uma equipa com raízes nas duas orlas do Atlântico

A semana de trabalhos contou com a participação de estudantes de Mestrado em Treino Desportivo e Licenciatura em Educação Física e Desporto da Uni-CV, que atuaram como voluntários e como futuros investigadores - recebendo formação direta nos equipamentos e metodologias utilizados. Também marcaram presença o INSP (Instituto Nacional de Saúde Pública) e o COC (Comité Olímpico Cabo-verdiano), dois parceiros que garantem que os resultados desta investigação chegam tanto às políticas de saúde como ao desporto de alta competição.

A missão foi liderada pelo Professor Élvio Rúbio Quintal Gouveia, da Universidade da Madeira, e pelo Professor Mateus Neves Andrade, ponto focal do projeto em Cabo Verde.

O projeto MICROCLI-MAC está ainda em fase de recolha e validação de dados. Os resultados preliminares, incluindo o mapeamento dos trilhos de Cabo Verde, deverão ser publicados ainda durante 2026. Para quem um dia decidir subir as montanhas de Santo Antão ou cruzar os vales do Fogo com um telemóvel na mão, essa aplicação pode ser uma garantia de segurança.

Don't have an account yet? Register Now!

Sign in to your account