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Onde estavam os cientistas cabo-verdianos? Foi essa a pergunta que Teresa Firmino, editora de Ciência do jornal Público, levantou a propósito da cobertura da erupção do vulcão do Fogo, em 2014, na mais recente sessão da Morabeza Científica. O encontro aconteceu na sexta-feira, 3 de julho, no Centro de Empregabilidade Francófono (Edifício 5), no Campus do Palmarejo Grande, com a palestrante a participar por videochamada. O tema: «E se dançássemos a morna: para falarmos de jornalistas e cientistas».

A Morabeza Científica é organizada pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Cabo Verde (FCT/Uni-CV), dentro do Programa de Aceleração Científica (PAC), da Fundação Calouste Gulbenkian e do GIMM (Gulbenkian Institute for Molecular Medicine), em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. É pensada para estudantes da pós-graduação em Investigação Científica em Biomedicina, mas qualquer pessoa pode assistir.

Firmino recorreu à metáfora da dança, que retirou do livro Deciding What's News, do investigador Herbert Gans, para explicar como funciona essa relação: as fontes procuram os jornalistas e os jornalistas procuram as fontes, mas quem decide o que fica no texto final é sempre o jornalista. Essa autonomia, admitiu, incomoda muitas vezes as fontes, que não a compreendem.

E a dança nem sempre corre bem. Firmino contou que, uma vez, repetiu uma entrevista com um cientista porque achou a primeira confusa. Para ela, foi uma decisão que mostra bem o que está em jogo: transparência e confiança dos dois lados.

A pandemia de covid-19 foi o exemplo que mais desenvolveu. Coube ao jornalismo verificar informações, proteger fontes e publicar dados rigorosos, mesmo quando isso significava contrariar o discurso oficial, como aconteceu com os ventiladores, apresentados com otimismo que depois se revelou exagerado. Em Portugal, disse, chegar a investigadores de entidades oficiais, como a Direção-Geral da Saúde ou os laboratórios do Estado, nem sempre é fácil: descreveu-o como um “jogo do gato e do rato” com as fontes oficiais.

Foi a partir daí que voltou ao caso cabo-verdiano. Na cobertura da erupção do Fogo, as notícias vieram sobretudo de declarações oficiais e institucionais, sem geofísicos, geólogos ou vulcanólogos cabo-verdianos a explicar o que estava a acontecer. Para Firmino, faltou ouvir quem conhecia o território e o fenómeno de perto.

A jornalista fez também questão de separar as duas profissões. Um jornalista de ciência, disse, não é um comunicador de ciência. Faz jornalismo, tal como há jornalismo de política, de economia ou de desporto, com as mesmas regras e a mesma forma de trabalhar de qualquer outro jornalista.

Aos cientistas, deixou um desafio: falar do seu trabalho para a sociedade, não só para ganhar visibilidade, mas para devolver o investimento público feito na investigação e ajudar as pessoas a compreender ciência.

A sessão terminou com um apelo de Firmino à aproximação entre ciência e sociedade, com uma comunicação mais acessível dos dois lados. Numa altura marcada pela desinformação, defendeu, essa dança, quando bem ensaiada, é quem lê que sai a ganhar.

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