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Uma instituição que tem internacionalizado Cabo Verde e especialmente São Vicente. A Faculdade de Engenharias e Ciências do Mar (FECM), e as escolas que lhe deram precederam, tem sido um marco na história do ensino superior nacional e com alguma referência em alguns Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). O presidente da FECM afirma que o objectivo da Faculdade mantém-se “estamos aqui para servir a sociedade”.

Uni-CV: Gostaria que nos fizesse um historial da FECM.

António Varela: A atual Faculdade, ou melhor dizendo, a instituição progenitora, iniciou as suas actividades formativas logo após a independência de Cabo Verde com cursos de marinha de cabotagem ministrados nas instalações do ex-centro de comando da marinha de guerra portuguesa localizado na Rª de Julião em São Vicente.

Posteriormente, no âmbito de um projeto de cooperação norueguesa, foi criado o Centro de Formação Náutica (CFN) nos anos 1980, dedicado exclusivamente à formação de oficiais da Marinha Mercante. Na altura, as actividades formativas tiveram início com a oferta de dois cursos, um para oficiais de ponte (comandantes), e outro para oficiais (engenheiros) de máquinas, respectivamente. De seguida foi também aberto o curso em Radiotécnia, direccionado para as radiocomunicações utilizadas na marinha mercante.

Com a evolução tecnológica que se verificou no âmbito das telecomunicações e, em particular da sofisticação dos equipamentos electrónicos de suporte, a figura do oficial radiotécnico deixou de ser justificada a bordo dos navios, uma vez que a maioria das suas funções passou a ser executada a nível dos oficiais de ponte. Concomitantemente, o CFN iniciou uma fase de reconversão do então Departamento de Radiotécnia para outras áreas afins da electrónica e telecomunicações, culminando no Departamento de Engenharia Electrónica e Computação na altura da criação do Instituto Superior de Engenharia e Ciências do Mar (ISECMAR) em 1996, com ofertas formativa a nível de bacharelatos em engenharia informática e automação, engenharia eléctrica e electrónica e engenharia de telecomunicações. Nessa mesma altura surgiram os cursos de bacharelato em engenharia mecânica e, um pouco mais tarde, o de engenharia civil e matemática, oferecidos pelos demais departamentos do instituto. Com a vinda do professor Doutor João Varela (falecido em 2007), iniciou-se a oferta formativa de bacharelatos em biologia marinha e pescas coordenada pelo Departamento homólogo.

Em 2006, com a criação da Uni-CV, o ISECMAR transformou-se em Departamento de Engenharias e Ciências do Mar integrando-se na universidade pública de Cabo Verde, Uni-CV.

Uni-CV: Por que passam para Faculdade?

AV: Após a aprovação, em janeiro de 2016, dos novos Estatutos da Universidade, foi de seguida, em novembro do mesmo ano, feita essa homogeneização com as restantes (FCT e FCSHA que também provinham de departamentos). No nosso caso, isso possibilitou que pudéssemos ter dois departamentos, o Departamento de Transportes Marítimos (DTM) e o Departamento de Engenharia e Ciências Marinhas (DECM), pois houve a necessidade de distinguir essas vertentes no que concerne aspectos de gestão. Dispomos basicamente de três grandes áreas intervenção: Formação Marítima, Engenharias e as Ciências Biológicas.

O Departamento de Transportes Marítimos ocupa-se exclusivamente do sector marítimo e o Departamento de Engenharia e Ciências Marinhas engloba as Engenharias e as Ciências Biológicas. Era necessário fazer esta distinção porque os cursos que são ministrados no setor marítimo estão sujeitos a requisitos de certificação reconhecidos internacionalmente e que são, todos os anos, validados por auditorias externas.

Cabo Verde faz parte da lista branca da Organização Internacional do Mar (OMI, ou IMO na abreviação anglo-saxónica) e isso significa que os diplomas e certificados emitidos pela FECM (cursos de licenciatura conducentes a oficiais, cursos profissionalizantes do sector marítimo) podem trabalhar em qualquer parte do mundo na marinha mercante e em qualquer navio, o que é uma raridade na nossa localização geográfica.

Uni-CV: E Cabo Verde tem uma imagem externa muito boa no que toca ao setor marítimo.

AV: São Vicente está virado para o mar, desde a sua povoação. Faz parte da identidade de quem vive nesta ilha. A baía do Porto Grande faz parte de nós. A chegada de navios é apercebida, creio, por uma parte considerável dos seus habitantes. É interessante que muitos se dão conta desse acontecimento e, inclusivamente, passam a saber identificá-los.

O Departamento de Transportes Marítimos é composto por um colectivo de docentes, oficiais de marinha mercante, que na sua grande maioria, pôde ao longo dos anos aprofundar e desenvolver as suas competências e conhecimentos beneficiando de acções de formação, a vários níveis, em instituições de formação de renome internacional. É inegável o contributo que têm vindo a dar, fazendo parte, inclusivamente, do historial da criação, desenvolvimento e consolidação deste sector de formação no país, e por isso dotados, actualmente, uma grande experiência nesta área.

Para a oferta formativa, o Departamento tem quatro áreas: as Ciências Náuticas, direcionadas para a formação de Comandantes da Marinha Mercante; as Máquinas Marítimas, para Oficiais de Máquinas; a Gestão dos Transportes Marítimos e Logística e a Electrotécnica Marítima. Estes no que aos cursos superiores diz respeito.

Oferecemos também formações profissionalizantes para marinheiros e motoristas e cursos modulares que têm de ser efectuados por todos os profissionais do sector marítimo, pois trata-se de cursos, uns de actualização periódica, outros de qualificação, para que o profissional possa manter/obter a sua certificação de marítimo, válida e reconhecida nacional e internacionalmente.

Estes cursos sempre tiveram profissionais de diferentes origens, sobretudo dos PALOP. Mas podem ser adaptados a outras realidades. O que significa que temos aqui um potencial enorme para ser desfrutado no que à internacionalização diz respeito.

Uni-CV: Na área de Biologia também fazem muita investigação científica?

AV: Sim, ao longo dos anos o grupo de ciências biológicas tem vindo a desenvolver um trabalho considerável, e em várias vertentes, com muito envolvimento em parcerias internacionais de projetos de investigação (veja-se, por exemplo, o número de projetos de MAC (Madeira-Açores-Canárias) que foram submetidos pelo grupo e que foram aceites no ano passado), e não só. É facilmente perceptível o muito entusiasmo nos estudantes e há que valorizar os nossos docentes que sabem e conseguem envolver muitas parcerias.

Uni-CV: A Faculdade tem muitos laboratórios o que traduz muitas parcerias. O que perspectivam em termos de projetos futuros?

AV: A Universidade ainda é muito jovem, mas eu acredito que podemos continuar a fazer aquilo que a sociedade espera que nós façamos, porque estamos aqui é para servi-la. Isso quer dizer ter sempre presente a perspectiva de inovação para responder aos desafios futuros, em consonância com a realidade que pretendemos enformar, pois trata-se de uma questão primordial para garantir nossa sustentabilidade. A necessidade de procura de novas parcerias com entidades/empresas públicas e privadas, nacionais e estrangeiras é de fundamental importância para a nossa internacionalização, aproveitando de algumas mais-valias intrínsecas associadas, quer à nossa localização geográfica, quer ao espirito aberto, fraterno, cosmopolita (e visionário) que tão bem define os habitantes desta região do país. Com o devido engajamento, acho que, a breve, médio prazo, conseguiremos corresponder plenamente e, eventualmente, para além daquilo que Cabo Verde espera de nós.

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