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Airy Garcia é um estudante finalista do 4º ano do curso de Agronomia Sócio-ambiental da Escola de Ciências Agrárias e Ambientais da Uni-CV, que teve a oportunidade de participar na mobilidade na Universidade de Bozen-Bolzano, em Itália, de 3 de Outubro a 17 de fevereiro de 2017. A experiência, que teve, disse ter sido extraordinária, e vai permitir-lhe dar o salto e lançar-se no negócio de uma agricultura sustentável.

Uni-CV: Como tiveram acesso à oportunidade de fazer mobilidade na Free University of Bozen-Bolzano?
Airy Garcia: A cooperação já existia, no entanto, no ano passado a Universidade de Bozen-Bolzano decidiu que apenas haveria uma vaga para a mobilidade. Então tive de preencher os requisitos lançados pelo Edital da ECAA: não ter disciplinas em atraso, ter uma média considerável e dominar a língua inglesa. Fizemos uma prova de inglês, que foi feita por professores da Uni-CV, o professor Paulo Borges, e eu fui quem teve a melhor nota.

Uni-CV: Por que razão escolheste este curso?
AG: Nasci e cresci numa família de agricultores, portanto é uma área que me suscita muito interesse e que acredito que precisa de ser mais desenvolvida, então quis aprender mais para dar o meu contributo da melhor forma. Acho que a melhor forma de ajudar a minha família, que vive da agricultura, é estudar.

Uni-CV: Como foi a experiência da mobilidade?
AG: De início não foi fácil, a questão da língua, adaptação, cultura nova e experiências novas. Também foi uma desafio foi adaptar-me ao clima. Naquela região chove muito, mas nem por isso se cancelam as atividades. De início é um pouco chato, mas são coisas que vamos ultrapassando, por que eu estava lá para dar o meu máximo.

Uni-CV: Como é a realidade da agricultura em Bolzano, é muito diferente da de Cabo Verde?
AG: Em alguns aspectos até é, mas também tem muitas similaridades. É uma região em que as parcelas são pequenas porque tem muita floresta e é muito montanhosa.

Uni-CV: E o que aprendeste lá vai ser possível de ser aplicado em Cabo Verde?
AG: Há aspectos que podem ser adaptados e outros que não, mas também foi uma experiência de abertura ao mundo lá fora e de trazer competências e conhecimentos de outras paragens. Houve muitas práticas que aprendi lá que poderiam ser muito úteis aqui. O salto é enorme em termos de tecnologia, porque é uma realidade muito avançada. No entanto, também usam métodos muito simples que produzem muito bons resultados e esses podem ser aplicados cá em Cabo Verde.
Contudo, a maior parte do processo agrícola lá é muito industrializada por causa da competição que existe quando toca ao produto final, também decorrente da globalização. Tudo é desenvolvido ao mínimo detalhe e isso foge um pouco à nossa realidade.

Uni-CV: Portanto é uma realidade agrícola industrializada.
AG: Sim, nos Alpes não há a ideia de agricultura de subsistência. Toda a estrutura a montante e a jusante à produção são trabalhadas. A formação e certificação são obrigatórias. Sem o cartão de agricultor não se pode comprar qualquer fator de produção.
Os agricultores lá são muito bem instruídos e com a sua prática de anos de trabalho, nós como estudantes, temos muito que aprender.

Uni-CV: Portanto um cenário de agricultores com formação superior?
AG: Sim, a grande maioria. Mesmo que a licenciatura de base não seja essa, existe sempre uma formação nesse sentido.

Uni-CV: Como foi a tua chegada?
AG: Eles não têm fundos para suportar estudantes do estrangeiro, a Universidade de Bozen-Bolzano só consegue suportar os seus estudantes quando estes vão em mobilidade, então a cooperação, e que muito se deve ao professor Massimo Tagliavini, que trabalhou intensamente com o governo da província de Bolzano, que se disponibilizou a financiar os bilhetes de avião, a estadia e um montante para a alimentação. O professor Massimo Tagliavini foi pessoalmente buscar-me de carro a Bolonha, cidade onde aterrou o meu voo, e nessa noite fiquei num hotel de três estrelas perto da universidade. Tudo isso entrou no financiamento da cooperação. Dois dias depois comecei as aulas.

Uni-CV: Como era o dia-a-dia como estudante da instituição?
AG: Bom, de início foi um pouco difícil. Só tive aulas com o programa de mestrado. Os programas de mobilidade são feitos de forma muito intensiva, porque já se espera uma experiência dos estudantes de mobilidade e depois nos dois últimos meses, não há mais aulas, só exames. A intensidade no início foi bastante exigente para mim, porque ainda tinha um fraco domínio da língua.

Eu fazia 8 horas de aulas por dia, três vezes por semana e seis horas nos outros dias. Foi uma experiência muito intensa que eu acabei por me adaptar.

De início comia na cantina da escola, mas depois comecei a cozinhar para mim, tive mesmo de aprender, por ser mais barato.

Uni-CV: Qual é a tua avaliação geral?
AG: A experiência foi fantástica de vários pontos de vista. O estudante é quem mais ganha com isso, mas o ganho também é para toda a equipa que trabalha para que o estudante possa aproveitar a oportunidade. Ao chegar lá, é um mundo novo. A universidade é mais antiga, tudo é muito bem planeado, as condições de estudo são muito boas. Eu acho que qualquer estudante merece ter uma experiência como esta, porque muda tudo. O nível de competitividade é muito intenso. Portanto fazer uma experiência como esta é um ganho enorme para o estudante e para toda a equipa da Universidade de Cabo Verde e da ECAA da Universidade de Bozen-Bolzano.

Uni-CV: Esta experiência mudou a sua imagem da agricultura?
AG: Completamente, da agricultura, da universidade e da vida. Ganhei uma experiência de vida muito maior que a académica.

Uni-CV: Disse que com este curso vai poder trazer melhorias para o negócio de agricultura familiar que tem. Como?
AG: Até hoje a minha família vê a agricultura só como um meio de vida, como a única alternativa. Como exemplo disso, eu tenho três irmãos mais velhos que já abandonaram a agricultura para seguir formação noutras áreas.

Eu quero mudar essa visão e provar que a agricultura pode ser também uma atividade económica que pode trazer uma renda para a família e ter uma vida boa. Até agora isso não tem sido muito fácil, porque para qualquer impulso é necessário também a parte financeira. Já tenho ideias de projetos que vi em outras paragens e pretendo avançar com eles. Um deles é trazer a cultura do morangueiro e os tensímetros de pressão que aprendi a fazer nesta mobilidade para regular a irrigação automática e rentabilizar o uso da água que é o maior factor limitante, principalmente na minha região. Também toda a visão do pós-colheita e das áreas de negócio, procurar nichos de mercado, a produção biológica que pude trabalhar um pouco em Bolzano e ampliar os meus conhecimentos no que diz respeito à produção biológica para avançar aqui. Eu acho que não é difícil investir nessa área aqui, mais difícil vai ser mudar a cabeça dos mais velhos sobre a inovação agrícola.

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