Presidente da comissão organizadora faz um balanço “muito positivo” do evento e detalha as recomendações que podem moldar a próxima fase da investigação em Cabo Verde.

Terminado o encontro da Rede BIN na Universidade de Cabo Verde, Arlindo Veiga, presidente da comissão organizadora, disse que cumpriu o que prometeu, mas, sobretudo, o de quem percebeu que o trabalho mais importante começa agora.
“O meu balanço é muito positivo. Conseguimos cumprir tudo o que tínhamos programado”, afirma. “O evento decorreu sem grandes sobressaltos, com os recursos que temos, e todos ficaram encantados, vão levar daqui uma ideia diferente do que é Cabo Verde.”
Para Veiga, o ganho mais imediato não está nos discursos, mas no que chama de “rede de conexão”. O encontro juntou instituições de pesquisa, start-ups e empreendedores em torno de problemas concretos. “Trouxe um exemplo concreto: um produto de combate a mosquitos produzido de forma não tóxica, resultado de uma conexão entre uma organização cabo-verdiana e outra sediada no Brasil. É um exemplo de cooperação real.”
Os dois think tanks realizados durante o evento, sessões em que se coloca um grupo de investigadores diante de um problema concreto e se exige soluções, produziram aquela que pode vir a ser uma das ideias mais relevantes do encontro para a realidade cabo-verdiana: aplicar inteligência artificial à agricultura num país com escassez crónica de água.
“As recomendações passaram por usar inteligência artificial, não apenas as LLMs como o ChatGPT, mas o conceito de inteligência artificial agêntica”, explica. “Em vez de um único agente a tentar resolver o problema, ter vários agentes a cooperar para o resolverem. É algo que está a ser feito noutras paragens e vimos como pode ser aplicado à nossa realidade.”
Veiga insiste, no entanto, que a aposta na tecnologia não pode ficar refém de uma única profissão. “Não podemos concorrer com as grandes empresas tecnológicas, mas precisamos de pessoas que compreendam como essas tecnologias funcionam. E isso de forma transversal - jornalistas, juristas, economistas, profissionais das ciências sociais. Todos precisam de compreender estes conceitos, não apenas usá-los.”
Outro caso citado como referência foi o do UPTEC, o parque tecnológico da Universidade do Porto, hoje completamente lotado e com listas de espera de empresas que pretendem instalar-se. “Estamos no início da criação de um parque tecnológico em Cabo Verde. Seria de todo o interesse aprender com a experiência deles”, afirma. “Eles não vieram cá ensinar como se faz. Nós temos as nossas realidades, temos pessoas competentes, em quase todos os painéis houve investigadores e empresas cabo-verdianas a mostrar o que estamos a fazer.”
Sobre a possibilidade de novos protocolos formais, Veiga é direto: não houve assinaturas desta vez, mas também não eram esperadas. “O protocolo de entrada na Rede BIN já tinha sido assinado anteriormente. Este evento é a cereja em cima do bolo de uma cooperação que se iniciou há mais de dois anos com a Universidade do Porto, justamente para integrarmos esta rede.”
O que pode vir a seguir, sustenta, são acordos nascidos da base. “Temos investigadores realmente a trocarem experiência. Se isso resultar em produto, resultar em cooperação, podem despoletar-se protocolos ou memorandos de entendimento a um nível mais formal.”
A próxima paragem da rede é Ribeirão Preto, no Brasil, em novembro. A Universidade de Cabo Verde estará presente. “Vamos trabalhar até lá. Queremos marcar uma presença assídua na Rede BIN”, conclui. “Fizemos muitos contactos, cara a cara. É a partir daí que tudo acontece.”