O vencedor do Prémio Literário Infanto-Juvenil Orlanda Amarílis de 2016, Pedro dos Santos Silva, é um ex-estudante do curso Estudos Cabo-verdianos e Portugueses do Instituto Superior de Educação (ISE), antes da constituição da Uni-CV. Com muita imaginação na bagagem, o autor de “A História do Peixe Arporão”, conta como as relações familiares e o papel dos docentes na sua formação o apoiaram na concretização da obra premiada.

estudante premio orlanda amarilis

Uni-CV: Quando e que curso frequentou da Uni-CV?
Pedro Silva: Frequentei e concluí o último bacharelato em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses (ECVP) em 1998/2001. No ano de 2010 concluí o complemento de licenciatura, na Universidade de Cabo Verde.

Uni-CV: Fale-nos um pouco de si.
PS: Nasci em S. Vicente, em Fonte Filipe. Havia três coisas que mais gostava de fazer na infância: jogar à bola, apesar de não haver muita abundância de bolas, com os amigos de infância, ler/escutar estórias e ainda tinha um gosto muito particular em ouvir os tocadores de guitarra quando faziam serenatas pelas ruas, tendo já na vida adulta iniciado a aprendizagem na execução deste instrumento. Fiz os estudos primários na escola salesiana, lugar muito marcante na minha vida e o ciclo preparatório na escola onde funciona actualmente a Uni-CV, no Mindelo. Interrompi os estudos ao concluir o ciclo preparatório, para retomar mais tarde em regime pós-laboral. Sou professor de Língua Portuguesa na escola secundária Januário Leite, no Paul, mas iniciei a minha carreira como professor de posto escolar em 1987/88, numa zona muito linda do Paul, chamada Santa Isabel, interrompendo-a a fim de completar o 3º ano do curso geral. Completei o curso do magistério primário em 1993 e a 2ª fase da FEPROF em 1994. Com a conclusão do ano zero na Ribeira Grande, em Santo Antão, ingressei no bacharelato em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses bem como o complemento de licenciatura na mesma área em 2010. Conclui o mestrado em Estudos de Língua Portuguesa: Investigação e Ensino na Universidade Aberta, Portugal, em 2014. O motivo para a entrada neste mestrado teve a ver com o facto de proporcionar o alargamento de conhecimentos dentro da área profissional e ainda porque foi uma possibilidade de, sem me ausentar, continuar os estudos. No entanto, ficou para trás um projeto que era fazer uma formação na linguística cabo-verdiana, porque sempre tive a vontade de fazer uma especialização na língua materna.

Uni-CV: No que se inspirou para escrever “A História do Peixe Arporão”?
PS: A obra “A História do Peixe Arporão” nasceu no contexto familiar. Talvez por ter perdido a mãe muito cedo, vivi um anseio por um reencontro na infância, ainda quando vivia num mundo de imaginação. É que fui sempre um menino com uma imaginação muito fértil, talvez transmitida pela avó materna que era aquela que enchia o meu mundo de fantasias com as estórias fantásticas que contava. Naturalmente que tal encontro nunca aconteceu, contrariamente ao que acontece com o peixe Arporão. Mas, assim como o peixe Arporão, houve algumas pessoas que serviram de amparo, nomeadamente a avó materna, a madrinha, algumas vizinhas e, sobretudo, o tempo que passava na escola salesiana.
Uni-CV: Tem outras obras que deseja trazer a público?
PS: Neste momento, estou a braços com a revisão de algum trabalho literário já feito e a tentativa de continuar um terceiro romance que completará uma trilogia. Gostaria de ter a oportunidade de fazer um doutoramento dentro da minha área, pois, este sim, é um sonho de há muito tempo, mas como sabe, o estudo tem os seus custos e um doutoramento não é nada barato. Quem sabe possa ter a possibilidade de alcançar este objetivo mais adiante!
Uni-CV: O que significou para si este prémio?
PS: O prémio infanto-juvenil Orlanda Amarílis significou a abertura de uma porta no mundo da literatura, pois muita gente passou a conhecer o Pedro dos Santos Silva como uma pessoa que gosta de contar estórias. Espero que a partir de agora surjam oportunidades de, pelo menos, mostrar os trabalhos feitos, quem sabe possa publicar alguma coisa futuramente.

Uni-CV: A que se dedica o tema “A História do Peixe Arporão”?
PS: Para falar desta obra infanto-juvenil, primeiro devo falar do contexto do seu nascimento que é essencialmente familiar. Ao meu filho mais novo, Pedro Fatuda, devo a entrada no mundo da produção de estórias de encantar, pois ainda com os seus três anos pedia-me para lhe contar estórias antes de dormir. Um certo dia desafiou-me a inventar estórias para lhe contar. Foi assim que nasceu esta estória assim como outras. Cada vez que contava, porque estava na memória, acrescentava coisas até que um dia resolvi passar para o papel esta e as outras que já tinha contado. Com o concurso, tive que acrescentar mais algum pormenor para poder estar adequada aos requisitos mínimos e alcançar uma linguagem que pudesse vir a merecer a atenção da criança.
Relativamente à temática, diria que é o drama familiar, mas há uma profusão de temas que visa despertar a criança ou mesmo os adultos para assuntos da atualidade como a exploração, manutenção e valorização da beleza do mar, a preservação das espécies, nomeadamente, a tartaruga verde, pois uma das personagens importantes na narrativa é a tartaruga Ema que se esconde em Aguada de Janela para não ser capturada, a contemplação e valorização do espaço paisagístico de Santo Antão e, aquilo que é o tema central, o drama familiar através de um desencontro entre a mãe Coca e o filho Arporão, como na vida humana nós escutamos diariamente dramas vividos pela separação de famílias, porém com finais felizes, ou mesmo a nossa história que vai desde a imaginação que podemos ter do quanto foi dolorosa a separação de membros de família aquando do resgate de escravos na costa da Guiné ou mesmo na divisão dos nossos antepassados africanos já no solo cabo-verdiano. Por tudo que disse acima, acho que esta obra, embora seja dirigida a um público infantil, pode ser objeto de leitura para os adultos e, ainda mais, espero que seja também algo a ter em conta nas escolas primárias do país, pois faz falta a introdução de obras desde a mais tenra idade, objetivando a promoção de hábitos de leitura.

Uni-CV: Sente que a sua formação na Uni-CV foi uma das ferramentas que lhe proporcionou a possibilidade de escrever a obra vencedora?
PS: Gostaria antes de esclarecer os motivos que me levaram a fazer a formação em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses. Desde muito cedo gostava de escrever. Comecei a escrever cartas ainda na escola primária e isto ajudou-me muito. Aquando da minha infância boa parte da população não possuía muitos recursos e a minha família não era excepção, pois cresci com uma avó já nos seus 60 anos que tinha sofrido um abalo com a morte da sua única filha. Ela acabou por desempenhar um papel bastante relevante na pessoa que sou hoje. Quando ela encontrava qualquer pedaço de cadernos com folhas limpas, levava-os sempre para mim. Escrevia coisas, inventava coisas, porque tive sempre uma mente bastante criativa.
Foi este o motivo que me levou ao encontro desta área de formação, o gosto pela escrita literária. Para isso, houve três pilares essenciais: o estudo da literatura, através da literatura cabo-verdiana e a portuguesa; o estudo da língua cabo-verdiana; o estudo da cultura cabo-verdiana.
Teria com estas três áreas de conhecimento aquilo que me faltava para a construção de textos com mais precisão.
Quando fui à Praia já tinha em manuscrito dois “grandes” textos, um intitulado “Aventuras na Ilha de Santo Antão”, mais para um público juvenil e outro “Arrematação de Ramos nas Festas de Santo António das Pombas”, este um pequeno conto que começou quando tinha para aí uns 10 anos. Com o tempo e com a minha vinda ao Paul e entrar de forma mais real nas festas de Santo António, fui acrescentando coisas até o conto se transformar num romance e por sugestão de um colega, reinventei outro título, agora Os Meandros de Uma Viagem, cujo espaço central é Paul, em Santo Antão. Não tenho a certeza, mas provavelmente se for publicado proximamente será o primeiro romance como espaço central nas terras do Paul. Foi na biblioteca do Instituto Camões, ISE, que passei tudo para o formato digital aquando da minha estadia na Praia entre 1998 e 2001. Este é o meu primeiro trabalho neste formato até ao momento de então.
O facto de ser estudante de Estudos Cabo-verdianos e Portugueses proporcionou-me a análise teórico-literária com a professora Arminda Brito, a análise de textos com a professora Fátima Fernandes, a cultura cabo-verdiana, o estudo da língua cabo-verdiana, elementos imprescindíveis na minha formação teórico-prática. Com as ferramentas fornecidas por estas cadeiras e a forma como os professores trabalhavam e levavam-nos a refletir sobre “a coisa” literária fez-me sair do ISE satisfeito e munido de material suficiente para lançar, a partir desta altura, numa produção bastante intensa, embora “na gaveta”, pois ainda não publiquei nada, só alguns dos colegas de profissão, os meus alunos, a minha família sabem o quanto gosto de escrever. A história da personagem principal de Os Meandros de Uma Viagem continua em mais dois romance, o segundo cujo título provisório é Fragmentos da Minha Vida e o terceiro para completar a trilogia O Dia em Que Nazário se Transformou em Afortunato Ventura, neste último de narrador homodiegético, pois é a personagem principal dos dois primeiros a contar a história de uma outra personagem.
Para esta obra infanto-juvenil, “A História do Peixe Arporão”, posso dizer que já tendo adquirido as ferramentas, e com a criatividade e imaginação tornou-se menos difícil a sua produção. Junto a tudo isso, o facto de eu ter uma criança em casa que me motivava e, em alguns casos me obrigava, porque até chorava caso não quisesse contar-lhe estórias, a minha imaginação, além de ser professor do ensino básico.
Aproveito para pedir desculpas às professoras por ter mencionado o nome delas e para agradecer-lhes e aos outros cujos nomes não foram referenciados, tanto do ISE como na Uni-CV, aqueles que tive na Universidade Aberta em Portugal e nas outras instituições formativas, os meus professores da primária, sobretudo a dona Guiomar e os do ciclo preparatório. Podem crer, qualquer que for a obra que venha a publicar, terá sempre o vosso cunho.
Oxalá este prémio possa abrir-me alguma porta no mundo da edição ou publicação, pois imagino as dificuldades que existe neste campo.

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