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A professora doutora Marilena Cabral foi docente na Universidade de Cabo Verde de 2009 a 2013. Doutorada em Imunologia, começou por lecionar a disciplina de Imunologia e exerceu também funções de Coordenadora da Licenciatura em Ciências Biológicas e do Mestrado em Saúde Pública. Desde 2013, que trabalha na implementação de programas académicos da Universidade Virtual Africana (UVA), nos escritórios em Nairobi. Atualmente é Diretora da Unidade dos Programas Académicos e ponto focal para os parceiros Lusófonos, por isso seguiu de perto esteve a  implementação do Centro de Formação Aberta, à Distância e e-Learning, FOADel, na Universidade de Cabo Verde, e esteve presente na inauguração oficail do Centro no dia 20 de Abril. Considera que a Uni-CV está numa posição privilegiada em relação ao continente africano e que o ensino à distância vai permitir que estudantes de outras ilhas possam, cada vez mais, estudar sem ter de se deslocar.

Universidade de Cabo Verde – Conte-nos um pouco sobre o seu percurso entre a Uni-CV e a UVA?
Prof. Dra. Marilena Cabral- Eu cresci em Portugal, sou cabo-verdiana e estudei em França da Licenciatura até ao Pós-doutoramento. Eu estudei Ciências Biológicas na área da Saúde, fiz um Doutoramento em Imunologia e tive a oportunidade de fazer um Pós-Doutoramento. Depois, vim trabalhar para Uni-CV.  Abriram uma vaga na minha área e consegui essa posição. Trabalhei como Docente e fui Coordenadora da Licenciatura em Ciências Biológicas e do Mestrado em Saúde Pública. Durante a minha estadia na Uni-CV, tive a oportunidade de participar no Atelier da UVA no Quénia, onde tive o meu primeiro contacto com o projeto. Abriu uma vaga para uma pessoa que falasse português e que tivesse Doutoramento e experiência com Responsabilidades Administrativas nas Universidades, candidatei-me e consegui. Quando entrei na UVA, eu era responsável pela implementação dos projetos nos países lusófonos; dois meses depois fui promovida para a posição da Diretora da Unidade dos Programas Académicos da UVA;neste cargo, sou responsável da implementação da oferta e desenvolvimento dos programas da UVA.

Uni-CV- O que sentiu que mudou na sua forma de ver o Ensino Superior ao longo da sua evolução profissional?
M. C. - Bom, eu acho que o que é importante, é que tenho estado sempre preocupada com o desenvolvimento do Ensino Superior, ver como poderemos melhorar as condições da Universidade e dos estudantes. É uma preocupação que sempre tive, mas a grande diferença é que já não leciono Biologia. Agora estou há um ano e meio sem exercer essa profissão, faço um trabalho mais administrativo, na reflexão, na implementação de projetos, estou a aprender muito. A outra grande diferença é que na Uni-CV eu comecei a ver as coisas primeiro do lado do Docente e dos meus estudantes, depois comecei a aprender a ter uma análise mais global a nível institucional. Agora, na UVA, vejo num nível mais geral, do ponto de vista do continente e das diferenças que temos em África. Preocupo-me em ter um impacto mais global e isso muda muito a visão das coisas, por que temos que ver além do nosso dia-a-dia, além da nossa instituição e analisar culturas e realidades diferentes.

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Foto de grupo no dia da inauguraçao do Centro FOADeL

Uni-CV- Explique-nos o conceito da Universidade Virtual Africana no que toca ao ensino à distância.
MC- A Universidade Virtual Africana tem como missão aumentar o acesso ao ensino superior e a sua qualidade no continente africano. Acreditamos que com as novas tecnologias seja possível. O facto é que no continente africano o acesso ao Ensino Superior é muito fraco, de apenas cerca de 7% das pessoas que saem do liceu, quando os estudos apontam que para que um país possa atingir um desenvolvimento económico com impacto, há necessidade de que pelo menos 12 a 15% dos alunos tenham acesso ao Ensino Superior.
Nós estamos num continente onde cada vez mais as pessoas querem ir para a universidade, mas não temos as infraestruturas que correspondam à procura e é muito difícil construir infraestruturas universitárias. O ensino online vai nos ajudar muito no acesso dos estudantes, sem necessidade de construir espaços físicos. Podemos atingir a maior parte da população. Acreditamos que seja mais sustentável, mas para isso os governos e as instituições têm que investir mais na internet.

Uni-CV - Como surgiu o projeto dos Centros de Formação Aberta, à Distância e e-Learning, FOADel?
MC- Este projeto foi financiamento pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e está na sua 2ª fase. Na primeira fase, entre 2005 e 2011, a Universidade Virtual Africana geriu esse projeto que contava com 10 países e 10 instituições. Nesta segunda fase são 27 instituições em 21 países africanos. São feitas várias atividades para o aumento do acesso a um Ensino Superior de qualidade e uma das atividades é a instalação dos Centros FOADeL nas instituições parceiras, que têm os equipamentos e programas que permitem o ensino à distância. A UVA contactou todos os Ministérios do Ensino Superior em todos os países com os quais detém esta parceria e solicitou que indicassem qual a instituição que faria parte do projeto. As instituições foram selecionadas pelos Ministérios do Ensino Superiore, tendo em conta que os programas do projeto são a formação dos professores, e a informática aplicada, as instituições escolhidas têm de ser da área tecnológica e formar professores.

Uni-CV - Quais são as potencialidades de fazer desse centro uma potência forte do ensino à distância em Cabo Verde?
M.C- Em Cabo Verde as potencialidades são enormes, visto que o país é constituído por ilhas, portanto deve fazer uma aposta forte, para que possam haver estudantes de todas as ilhas no Ensino Superior sem a necessidade de se deslocarem. Começando por este Centro FOADeL, poderemos iniciar com a formação através de videoconferências que necessitam de instalações mais pequenas ao nível das ilhas; pode haver desenvolvimento de cursos e formações de professores. A partir deste centro gostaríamos de ver o País a pensar como aumentar os pontos de acesso nas ilhas, alargando o ensino superior a mais estudantes.
Com a demografia de Cabo Verde, os números de habitantes por ilhas não justificam a construção de campus universitários em todas as ilhas. Então é preciso ver o ensino online como uma oportunidade para aumentar o acesso e dar oportunidade a todas as pessoas que gostariam de estudar e não podem devido à distância.

Uni-CV- Nos 21 países que se vão instalar os Centros FOADeL, quais as dificuldades que surgem com maior frequência?
MC- Para já, é preciso ainda um trabalho de sensibilização para o ensino online, muita informação, formação dos docentes em como elaborar, oferecer, facilitar os cursos online, o suporte e o apoio ao estudante no curso online. Esse também é o nosso papel. Temos a missão de consciencializar, informar, conseguir apoiar na mentalização das pessoas de que o ensino online é uma aposta forte para o continente. Também a questão da internet é muito importante. É preciso que os governos apostem com força na internet.

Uni-CV-Como foi a experiencia da docência na UniCV?
MC- Foi uma excelente experiência, aprendi muito. Tive a sorte de ter colegas muito bons e chefias muito boas, a nível da Reitoria e a nível do departamento. A nível profissional foi bom, por que além de dar aulas, pude fazer parte da administração da Universidade e assim participar em alguns projetos, também em parcerias internacionais a nível da região. Muitas das coisas que aprendi na Uni-CV ainda hoje aplico na UVA.

UniCV- E hoje o que acha da evolução da Universidade?
MC- Acho que a Uni-CV ao nível do continente está muito bem posicionada. É uma realidade, a nível dos docentes, das condições dos estudantes e dos funcionários. Por exemplo, devido ao facto de haver um alto nível de competência, foi muito fácil a instalação do centro FOADeL. Talvez o que mais me tenha marcado na semana em que estive na Uni-CV para o lançamento do Centro FOADeL, foi o número de atividades da universidade. Senti um dinamismo diferente, a universidade tornou-se mais dinâmica.

Anilton Carvalho

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