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O Leitorado Brasileiro Cabo Verde, integrante da Rede Brasil Cultural (Portal dos CCBs e Leitorados Brasileiros), realizou, em 11 de maio, a primeira encenação da peça "O Auto da Compadecida" em língua cabo-verdiana, no Campus do Palmarejo, Cidade de Praia.

A peça cujo título foi adaptado para a realidade cabo-verdiana para “Fronta e ka so agu ku lumi”, contou com a parceria da Associação teatral Fladu Fla e foi acolhida no âmbito das programações de extensão universitária da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Uni-CV.

O projeto foi realizado graças ao apoio da Embaixada do Brasil e do Centro Cultural Brasil Cabo Verde, que ofereceu, no momento da sua montagem, uma oficina intitulada “Exercícios de adaptação para a cena”, coordenada por Sara Estrela.

A apresentação da referida peça ocorreu como momento cultural do V Encontro Internacional de Reflexão e Investigação, num esforço de criar e unir laços acadêmicos, artísticos e culturais e contou com a presença de suas principais autoridades acadêmicas, docentes e estudantes e também com pesquisadores estrangeiros que vieram à cidade da Praia para participar do EIRI, evento realizado anualmente na instituição, no campus do Palmarejo.

“O Auto da Compadecida”, obra de 1955 de Ariano Suassuna

"O Auto da Compadecida" foi escrito em 1955 pelo autor brasileiro Ariano Suassuna (1927-2014). É um drama que se passa no Nordeste do Brasil e tem como palco o sertão. Os personagens, envoltos numa atmosfera circense, vivem entre a tradição da era medieval, em que a cultura era indissociável da religião, e a literatura picaresca espanhola, própria à cultura popular.

A peça trata das aventuras de João Grilo e Chicó, dois nordestinos pobres que vivem de golpes para sobreviver. Eles estão sempre enganando o povo de um pequeno vilarejo no sertão da Paraíba, inclusive o temido cangaceiro Severino de Aracaju, que os persegue pela região. Ariano Suassuna, escritor paraibano, foi consagrado pelo teatro, com a força do humor e soube valorizar elementos do Nordeste brasileiro, como a literatura de cordel, a música, a dança e o teatro. Fez muito sucesso graças à façanha de tratar de assuntos como a hipocrisia, avareza, miséria e a fome de maneira, ao mesmo tempo, crítica e irônica. Eternizado pelas Academias Brasileira de Letras, Pernambucana de Letras e Paraibana de Letras, hoje são sobretudo as suas histórias (re)inventadas e (re)vividas no imaginário popular. 

A obra foi adaptada para minissérie de televisão e também ao cinema, sob a direção de Guel Arraes, fazendo parte do elenco conhecidos atores brasileiros nos principais papéis: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Denise Fraga, Marco Nanini, Fernanda Montenegro, Diogo Vilela, Rogério Cardoso e Lima Duarte.

Adaptação da peça para a realidade cabo-verdiana

Para adaptação à realidade cabo-verdiana, o texto foi traduzido inicialmente por duas estudantes do terceiro ano do curso de Graduação “Estudos cabo-verdianos e portugueses” (LLC), Djamilsa Lopes e Solange Semedo, em seguida moldado à realidade cabo-verdiana, com a adaptação da peça por Sabino Baessa, presidente da Associação teatral Fladu Fla.

O objetivo, com essa adaptação teatral, foi reunir elementos tão comuns às realidades brasileira e cabo-verdiana e traçar a rede de relações entre os dois países, sem, contudo, perder a essência da obra de Suassuna nem tampouco negligenciar aspectos próprios à condição do homem, à reivindicação de pertencimento à terra (pluralidade linguística), à diversidade musical e à expressão artística da cabo-verdianidade.   

Além do nome da peça, foram adaptados também os nomes dos atores, que ganharam força nos personagens de Djon (João Grilo), Txiko (Chicó), Zabel (mulher do padeiro, Dora) e Djon di bueru (cangaceiro Severino).

Padri: Kazamentu e Dios ki inventa...
Djon: Y Xuxu inventa kornu!

 

Paderu: Txiko, Djon, nhos ben pega trabadju, pamodi tenpu e dinheru.
Djon: Trabadju e kuza ki ten mas txeu na kel kau li...
Txiko: Y dinheru kela nu ka ten!

 

Foi realizado também um livrete com os atores que compõem o elenco, a história adaptada da peça, a contextualização da obra de Suassuna, bem como dados biográficos do escritor. Em homenagem ao escritor e consoante à essência de “O Auto da Compadecida”, o livrete foi feito no formato de literatura de cordel, uma modalidade impressa de poesia, outrora bastante estigmatizada devido ao linguajar despreocupado, regionalizado e informal utilizado para a composição dos textos, porém que resistiu e hoje é conhecida internacionalmente.

A capa do livrete, cuja arte foi aproveitada para também para o cartaz de divulgação, foi concebida de forma a integrar elementos da realidade cabo-verdiana, tão próximos da realidade brasileira. O sol, sempre presente, que muitas vezes castiga a população, a acácia, símbolo de aridez, mas também de resistência e resiliência, o chão de terra seca batido, que vai se desintegrando ao ponto que chega no mar. Aos poucos as ondas vão se intensificando como representação do oceano, que une estas duas terras do lado do Atlântico. 

O programa de Leitorado é desenvolvido desde 2011 na cidade da Praia, com o intuito de divulgar a língua portuguesa e a cultura brasileira e atua na Universidade de Cabo Verde, no Centro Cultural Brasil Cabo Verde e no Instituto Internacional da Língua Portuguesa. A Leitora, desde que assumiu a função em setembro de 2015, tem coordenado atividades que impulsionam o programa de extensão da referida universidade,  tais como a mesa-redonda “Políticas nacionais de promoção da língua”, realizada no âmbito das comemorações da língua portuguesa e da cultura na CPLP, o “Cinema com Literatura”, realizado nos campi do Palmarejo e do Mindelo, uma forma de abordagem, lúdica e dinâmica, de obras literárias brasileiras representativas de vários movimentos literários, do Romantismo ao Pós-Modernismo, entre outros eventos de natureza acadêmica, artística e/ou cultural. 

 

Uni-CV acolhe a peça teatral "Fronta e ka so agu ku lumi"

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