prof zezinha sasO Serviço de Acção Social representa o departamento que gere a responsabilidade social na Universidade de Cabo Verde. Como tal, este serviço destina-se a acompanhar os estudantes em todas as suas etapas, apoiá-los nas situações mais difíceis e na atribuição de bolsas de acordo com os critérios estabelecidos. Em entrevista, a Diretora do Serviço falou-nos sobre os desafios que os nossos estudantes ultrapassam todos os dias e em como a Universidade tem continuamente trabalhado para os poder acompanhar.

Uni-CV: Quais são as funções dos Serviços de Ação Social da Uni-CV?

Maria José Alfama: Os Serviços de Ação Social (SAS), conforme o estipulado no artigo quadragésimo sétimo dos Estatutos da Uni-CV, no seu nº 6, asseguram a política de apoio social à comunidade universitária, e de modo particular aos estudantes. Dito assim de forma mais simples, isto tem a ver com melhorar as condições dos estudos e de aprendizagem mediante a prestação de serviços e concessão de apoios. Existem áreas ou domínios nos quais damos particular atenção, nomeadamente o atendimento e o acompanhamento dos estudantes, que é feito a partir do momento em que o estudante é acolhido na primeira semana nas unidades orgânicas. Recebemos o estudante, queremos acompanhá-lo de forma a que ele permaneça, mas com sucesso nos seus estudos. Para isso existem setores que são fundamentais e que também estão definidos nos estatutos e que têm a ver com a alimentação e o alojamento, a promoção  da saúde, bolsas de estudo, material didático e demais recursos pedagógicos, atividades desportivas e culturais e outros apoios socioeducativos.        

Uni-CV: Quais têm sido as grandes prioridades para dirigir este setor?

MJA: A nossa grande prioridade é tornar os Serviços de Ação Social conhecidos por todos da academia, e é por isso que, um dos serviços que mais se empenha na receção dos caloiros, digamos assim, são os SAS. outro desafio está associado à  localização dos nossos gabinetes que não tem sido a ideal. Temos estado a lutar pelas mudanças possíveis para que haja uma melhor localização dos gabinetes e temos também apostado na comunicação com os estudantes. A segunda prioridade é garantir as condições básicas para a permanência dos estudantes. Aí entra a questão do atendimento, do apoio psicopedagógico, porque há uma grande dificuldade nesta etapa de transição do secundário para o ensino superior. Mas também sentimos que é urgente trabalharmos o empoderamento do estudante e dar-lhe ferramentas para que possa caminhar sozinho. Trabalhamos a emancipação do estudante. Sentimos que ele se sente muito perdido no 1º ano e que ainda não existe essa capacidade de procurar as “coisas” da universidade, e não se pede informações. Os nossos estudantes pouco procuram ainda o site. No site está praticamente tudo, e falta ao estudante ir lá e ler com paciência, tirar apontamentos se for preciso e guardá-los. Essa capacitação para a participação é tão fundamental para nós que promovemos e criámos o Corpo de Voluntários da Uni-CV, para nós é uma extensão dos SAS. São os nossos braços, os nossos sentidos por estarem perto dos colegas, mas também porque nos apoiam na promoção de atividades que chamam os estudantes, como por exemplo, através do desporto, da cultura, de atividades que promovem a saúde. É fundamental que criemos essas condições para que haja mais coesão, mais amizade, sobretudo mais partilha de experiências entre os estudantes também. Há um outro desafio que tem a ver com recursos, particularmente os financeiros. Muitas vezes quando os estudantes nos procuram é porque já têm dividas acumuladas, e eles associam a ação social às bolsas de estudos. Não é bem assim. As bolsas para o pagamento das propinas são do governo, apenas comparticipamos com 8%. A Uni-CV oferece, com apoio de vários parceiros, bolsa-alimentação, bolsa-emprego e bolsa/prémio de mérito académico e  cívico, que são formas de incentivo ao estudo e a uma maior participação na academia.

Uni-CV: Em termos de comunicação interna quais os mecanismos que mais usam?

MJA: Todos os meios possíveis para se chegar sobretudo ao estudante. Eu lamento que, estando na universidade os estudantes continuem a usar essencialmente os seus emails pessoais… e perdem as informações enviadas pelo email institucional. Fazemos um esforço para comunicar sobretudo pelos meios que a Uni-CV promove: email institucional, voip e, com um grande apoio do Gabinete de Comunicação e Imagem, todas as atividades promovidas são comunicadas por avisos/ convites ou reportagens. Mas também através dos voluntários, da Acad (associação académica), das redes sociais e, em última instância o email pessoal dos mesmos.

Uni-CV: Quais os pontos mais negativos de que sofre o setor?

MJA: Penso que, os desafios são muitos, eu tomo-os não como negativos, mas como desafios a serem vencidos. Em primeiro lugar, temos carência de recursos, sobretudo financeiros, mas creio que é um problema geral e não é só o nosso serviço a sofrer deste mal. Temos estado a reclamar, ao longo dos anos, a nossa autonomia administrativa e financeira. Pensamos que se os Serviços de Ação Social a tivessem, poderíamos também participar mais ativamente na mobilização de recursos lá fora. Há quase 10 anos que lutamos para termos um fundo de apoio aos estudantes, sobretudo para cobrir as necessidades urgentes que aparecem na academia. Um outro desafio é o de sermos mais conhecidos pelos estudantes e para isso precisamos que os gabinetes dos SAS estejam mais visíveis em todas as faculdades e escolas. Aqui na praia, no Campus do Palmarejo, conseguimos com muito esforço ter um Gabinete de Orientação Psicopedagógica (GOPE), e felizmente, porque assim os nossos psicólogos poderão atender com maior tranquilidade os estudantes que nos procuram. Penso que é um grande ganho.

Uni-CV: Neste serviço reflete-se de alguma forma as mudanças criadas pela eleição livre do Reitor da Uni-CV?       

MJA: Sim, tivemos alguns ganhos. O próprio GOPE, por exemplo, vem na sequência da eleição da reitora. Houve um reforço em termos de pessoal, porque há docentes que são orientados no sentido de nos apoiarem no GOPE, e em termos de material também para instalarmos o GOPE. Há sensibilidade no que toca à nossa vontade de estarmos localizados mais próximos dos estudantes. Na praia, nós estávamos no 2º andar do Campus Palmarejo e conseguimos descer para o rés-do-chão… estamos a sentir-nos mais emancipados em termos da organização das nossas atividades e temos uma maior abertura da parte da Reitoria.

De entanto sentimos  que há necessidade de haver a adequação dos nossos normativos na sequência da publicação dos novos estatutos e há uma esperança no sentido de clarificação das atribuições, porque, por exemplo, apesar de estar sob a nossa responsabilidade as cantinas, as residências, as placas desportivas, as reprografias, etc, devido à herança, isto é, a forma como a própria universidade nasceu, que é da agregação dos vários institutos e escolas, sentimos que ainda há dirigentes das faculdades/escolas que ainda veem esses serviços como parte da sua tarefa, dificultando a intervenção dos SAS. A nossa proposta é a de gerirmos estes espaços, obtendo recursos, sobretudo financeiros, revertidos a favor da Ação Social. A partir disso poderemos criar o tal fundo de apoio aos estudantes.

Uni-CV: Relativamente ao programa de alojamento/residência da Uni-CV, a quem se destina? 

 MJA: Em primeiro lugar aos estudantes, mas também aos professores e, em tempo de férias, a residência deverá também servir a sociedade em geral para atividades como colónias de férias, de associações desportivas e culturais, de forma a rentabilizar o espaço. Nós aguardamos que o regulamento de gestão das residências seja aprovado no CONSU para abrimos a residência da ECCA.

Em relação à residência de São Vicente, há necessidade de remodelação. Em situações como estas, em que as residências ainda não estão disponíveis, o que fazemos é identificar apartamentos que estão na imediação das nossas Escolas e Faculdades para aluguer, em preços acessíveis.

Uni-CV: Em relação a Bolsas de Estudos, quais são as condições para a candidatura dos estudantes?

MJA: As bolsas de estudos podem ser conseguidas através de várias entidades: do governo, das câmaras municipais, de algumas ONG´s, empresas ou instituições bancárias. Cada uma delas tem os seus critérios. Nas bolsas do governo o nosso papel está muito bem definido: divulgar, orientar os estudantes, receber os dossiês de candidatura e enviá-los à DGES. Ao longo do ano, à medida que vamos identificando os estudantes com problemas,  fazemos o inquérito socioeconómico, solicitamos os comprovativos que provam a situação socioeconómica e académica e  encaminhamos estes processos à FICASE, pedindo um subsídio para os estudantes.

Em termos de outras bolsas, nós temos uma experiência de bolsa-alimentação e a bolsa- emprego desde o ano letivo anterior, com a parceria das nossas cantinas e de algumas pessoas que pedem o anonimato. Destinam-se sobretudo aos estudantes cuja situação sócio-familiar é de muita carência. Para a bolsa de alimentação damos particular atenção àqueles que vêm do interior da ilha de Santiago, como forma de lhes garantir pelo menos uma refeição quente. A bolsa de emprego também é resultado de uma parceria junto das cantinas, em que o estudante carenciado que tem dívidas de propinas é recrutado. Ele trabalha umas horas e tem direito a uma refeição e os 9 mil escudos para apoiar no pagamento da sua dívida.

A universidade oferece bolsas/prémios de mérito académico que se destinam a quem tiver a melhor média em cada unidade orgânica e em cada ano letivo. Estes estudantes ganham 10 meses de propinas pagas. O  melhor entre eles recebe 12 meses de propinas pagas.

Este ano, no 10º aniversário da Uni-CV, criámos a Bolsa/Prémio de Mérito Cívico, em que a Ação Social reconhece e valoriza o papel que os voluntários têm tido na nossa instituição. É graças a eles que realizamos um leque variado de atividades e então, há já alguns anos que defendíamos a criação do mérito cívico. Os critérios têm a ver com o envolvimento do estudante, primeiro ele tem que estar inscrito no Corpo de Voluntários ou na Associação Académica e, sobretudo, participar nas atividades da academia. É feito o registo das atividades em que ele participa. É uma forma de reconhecer o trabalho daqueles que estão permanentemente connosco, e reconhecer o impacto que a ação do voluntário tem na vida da academia. Sobretudo porque há estudantes que deixam de participar numa aula para prestar serviço voluntário, o que ainda nem sempre é valorizado pelos seus pares e pelos seus professores. Estes são estudantes que mais se empenham nessas ações de promoção da saúde, desporto, da cultura, da criação de laços de afeto na academia, trabalham no fomento do intercâmbio, da unidade, da maior inter-relação entre os docentes, dirigentes e estudantes. A Ação Social só consegue concretizar o seu plano de ação com a colaboração da Acad e do Corpo de Voluntários da Uni-CV.

Uni-CV: O que mudou com a criação do GOPE?

MJA: A partir do momento que passámos a ter mais um GABINETE e mais técnicos, o serviço tornou-se melhor organizado, sobretudo o atendimento psicopedagógico. O Gabinete de Ação Social (GAS) passou a ter maior disponibilidade para atender aos assuntos referentes às bolsas e dinamizar outras atividades. Há um primeiro momento que é o GAS que faz a triagem, atende a todos, mas depois reencaminha os que de fato têm a necessidade do acompanhamento psicopedagógico para o GOPE. Portanto, foi uma mais-valia, sendo que há um acompanhamento mais continuado e mais sistemático aos estudantes que de fato precisam, sobretudo os estudantes que não sabem como estudar. Também acompanhamos outros casos de estudantes que se sentem sobrecarregados com o trabalho, O PESO DA família, além dos trabalhadores estudantes, e outras situações em que os estudantes precisam de apoio emocional. Há outra vertente que tem sido reforçada que são os Workshops e os Ateliês de Capacitação em várias vertentes como por exemplo, da elaboração do curriculum, da procura do primeiro emprego, na questão da prevenção de comportamentos de risco, mesmo na questão da transição do ensino secundário para o superior, mas estamos a trabalhar também com aqueles que vão sair para o mercado de trabalho, para os empoderar, dar-lhes ferramentas no sentido de se sentirem mais autoconfiantes na procura do primeiro emprego.

Uni-CV: Quais são os projetos futuros a que se propõe este serviço?

MJA: Penso que há um projeto que não depende diretamente de nós que é a adequação dos normativos da Ação Social, mas teremos um papel importante e para nós é uma prioridade. Sobretudo na dinamização de alguns campos de intervenção, como as cantinas, residências, reprografias. Sonhamos ter uma papelaria nossa, sonhamos ter transporte para os estudantes. Pensamos numa ação social que, para além de apoiar, de promover o bem-estar na academia, também possa gerar e gerir os seus próprios recursos, multiplicá-los no sentido de ter mais para poder ajudar mais, e pensamos que a adequação dos normativos para nós é uma prioridade no sentido de nós redinamizarmos isso.

Temos como propósito criar um sistema de bolsas mais eficaz, sobretudo reforçar a bolsa emprego e a bolsa alimentação, mas somos defensores de que uma universidade pública deveria também ter bolsas sociais, que isentem ou reduzam as propinas para os mais carenciados.

Almejamos um fundo de apoio aos estudantes, onde teremos um fundo de emergência. Sonhamos vir a depender menos, em termos de recursos, das faculdades/escolas na concretização das nossas ações. Em São Vicente só temos uma técnica e é urgente termos mais. É graças às parcerias de alguns docentes, estudantes e funcionários que temos conseguido realizar muitas outras atividades.

Também temos como desafio e como prioridade a sistematização dos processos dos estudantes, sobretudo os associados ao acompanhamento psicopedagógico, a gestão das bolsas e ainda apostar na especialização dos nossos técnicos. Eu vejo na mobilidade uma oportunidade de especializarmos os nossos técnicos, de modo que estamos a fazer os possíveis para que cada técnico tenha a oportunidade de conhecer outras experiências, noutras universidades.

Uni-CV: Que campanhas têm planeado para este ano?

MJA: Há mais de 5 anos que temos o projeto de apadrinhamento de estudantes, e temos procurado discutir essa ideia com várias pessoas. Não tem sido fácil, porque o Ensino Superior não é obrigatório, mas há sempre pessoas solidárias que acabam por comparticipar. O mais engraçado é que todas essas pessoas dizem querer ficar no anonimato, ajudam a pagar as propinas dos estudantes, mas querem ficar no anonimato.

Estamos a pensar em fazer uma nova campanha também para aproximar mais pessoas no próximo ano lectivo.

Uni-CV: O apoio é determinado por quem o dá?

MJA: Exactamente. Há também um outro projeto que é Universidade Amiga da Comunidade, que é um projeto sobretudo voltado para as crianças e é executado no  mês de Maio e Junho. Associados a alguns cursos, Educação da Infância, Ciências da Educação, Ciências Sociais, Enfermagem e aos nossos Estagiários, apoiamos os Jardins de Infância/Centros de acolhimento de crianças mais próximos da nossas Faculdades/Escolas quer aqui na Praia, quer em São Vicente, realizando seminários, Workshops, sobretudo destinados a mães mais jovens no sentido de trabalhar a autoestima. Por outro lado promovemos a angariação de brinquedos, géneros, fraldas e outras coisas mais e ainda a promoção da saúde.

Desde o ano passado que estamos a realizar a Feira Infantil em que trazemos os Jardins de Infância e Escolas e também acabamos por trazer os nossos professores e funcionários com os seus filhos. É uma atividade que gera algum recurso para a Ação Social. 

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