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José Lopes é ex-estudante do Instituto Superior de Ensino (ISE), licenciado em Língua Inglesa e mestrado em Ciências Sociais pela Uni-CV. Desde 2001 que enveredou pela docência. O mérito pelo seu trabalho comunitário foi reconhecido quando foi selecionado para o programa YALI (Young African Leaders Initiative Network), uma iniciativa do presidente Barack Obama para apoiar jovens deste continente e estimular o seu crescimento e prosperidade. José Lopes afirma que a passagem pelo ISE foi muito enriquecedora em todos os sentidos, tendo sido um dos locais em que começou a conhecer o trabalho comunitário e o seu poder social.

Uni-CV: Como foi o seu ingresso na ex-Instituto Superior de Ensino?

JL: Entrei no ex-Instituto Superior de Ensino (ISE) no ano de 1999, na altura as aulas eram lecionadas no edifício da Escola Grande, no Plateau. Depois de terminar o 12º ano, queria fazer duas formações superiores: Língua Inglesa, que era a minha primeira opção desde a infância e a segunda Direito. No último ano do liceu, falei com uma professora sobre as perspectivas futuras e ela informou-me que iria iniciar uma licenciatura de raiz em língua inglesa pela primeira vez no ISE. Sem perder muito tempo fiz a matrícula. No início foi um pouco difícil porque, apesar de gostar da língua inglesa, não tinha o contacto permanente com a língua e os docentes na altura eram quase todos americanos. Isso criou muitas dificuldades de início, tanto que alguns estudantes acabaram por desistir por não conseguirem acompanhar o curso. Mas logo depois acabámos por integrar no estudo e as dificuldades foram desaparecendo.

Uni-CV: Se tivesse que fazer a escolha de um curso agora, qual seria?

JL: Escolheria o mesmo curso na Universidade de Cabo Verde. Na altura, em 1999, tinha somente duas opções: estudar no ISE ou estudar no estrangeiro, mas como havia oportunidade de fazer em Cabo Verde, escolhi o ISE.

Uni-CV: Como foi a experiência de 5 anos no ISE?

JL: Foi uma experiência super interessante. A maioria dos nossos docentes eram americanos, voluntários do Corpo da Paz em Cabo Verde, e mesmo os docentes cabo-verdianos eram excelentes profissionais, tanto nas disciplinas nucleares como nas pedagógicas, e isso ajudou-me muito na minha formação enquanto professor que sou hoje. Aprendi muito com os docentes e com a comunidade académica, apesar de ter tido muitos desafios e dificuldades na altura, normais para um país como o nosso. Mas possuíamos as mínimas condições para nos formarmos. E do curso saíram profissionais que engrenaram em diversas áreas. Sinto-me eternamente grato por fazer a licenciatura em inglês no ISE.

Uni-CV: Ainda mantém contacto com os docentes? 

JL: Com certeza. Com quase todos os docentes tenho contacto permanente. No caso de alguns deles, trabalhamos juntos, que é o caso do Dr. Germânio Lima e da Dra. Cândida Gonçalves. Ela marcou-me muito enquanto docente e pessoa, falávamos de muitas outras coisas da vida, acabando por abrir os nossos horizontes para o futuro. A maioria de nós tínhamos a ambição de ser professores, mas também queríamos ser agentes de transformação da sociedade. Quase todos os docentes tiveram um impacto muito importante para a minha formação pessoal e enquanto docente.

Uni-CV: Após o término dos estudos superiores em 2004, seguiu a carreira de docente. Como foi esse percurso?    

JL: Devido à influência dos meus colegas, também como forma de ganhar mais motivação e experiência, comecei a sentir a necessidade de colocar em prática o que aprendia na sala de aula, foi assim que comecei a dar aulas logo em 2001, na Escola Secundária Amor de Deus. O ingresso no mercado de trabalho foi fácil. Comecei a dar aulas muito novo, por isso alguns dos meus alunos eram quase da minha idade, isso foi um pouco desafiante, mas consegui vencer esses desafios e desde então, continuo a ser Professor de Inglês. De 2006 a 2009, trabalhei com o Corpo da Paz e fui orientador de estágios pedagógicos no liceu. De 2007 a 2008, fui professor a tempo parcial na Uni-CV, e em 2009 fui trabalhar no ISCEE onde até agora sou responsável pela área de língua e docente a tempo inteiro de inglês de negócios.

Uni-CV: Entretanto houve outros desafios pelo caminho como é o caso de YALI?

JL: A nível profissional foi uma das experiências mais interessantes que já tive, porque tive oportunidade de fazer intercâmbios com colegas de vários outros países e culturas. No meu grupo, na Universidade de Virginia, nós éramos 25 de 18 países diferentes e aí pude vivenciar uma grande dinâmica e diversidade cultural. Isso ajudou-me a ganhar mais maturidade, a aprimorar os meus conhecimentos de uma sociedade multicultural. Enquanto africanos, temos que ter uma visão mais ampla daquilo que é o nosso continente. A experiência nos Estados Unidos permitiu-me ganhar mais conhecimento enquanto cabo-verdiano e africano. Fui para Estados Unidos como Agente Comunitário. Além de professor, sou líder comunitário e o programa YALI permitiu-me ganhar mais experiência. Visitei várias instituições de cariz sociais, ONGs, Instituições do Governo tanto a nível local e central, tive contactos com senadores federais e estaduais, presidentes de ONGs, entre outros. Para além do programa académico que tivemos, visitei diferentes lugares, falei com diversas pessoas que trabalham em associações comunitárias, isso ajudou-me a fortalecer o meu entendimento do real significado de ser líder comunitário, saber o que é um agente de transformação social. Portanto isto mostra que quando queremos e estamos motivados, é possível promover a mudança desde que usemos as melhores abordagens e que sejam implementadas de forma correta. É sempre possível que haja mudança para as populações e para a sociedade em geral.

jose lopes editada 10 08 2015

Uni-CV: Disse que é líder comunitário. De que associação?

JL: Sim, sou líder da Associação para o Desenvolvimento Comunitário de Picos (APDZA), que fica situada em São Salvador do Mundo.

Uni-CV: Quando começou a trabalhar com a APDZA?

JL: Em 2006, no mesmo ano que comecei a trabalhar com o Corpo da Paz. O espírito de voluntariado começou a fortalecer-se em mim nesta primeira experiência com o Corpo da Paz, e foi assim que decidi criar, juntamente com uns colegas, a APDZA em 2006. Apesar de eu residir na Praia, procuro sempre participar e incentivar a realização de atividades de voluntariado na comunidade de Picos Acima, e temos tido algum sucesso nos trabalhos que temos estado a fazer.  

Uni-CV: Esta vontade de contribuir para a comunidade nasceu na passagem pelo ISE? 

JL: De certa forma sim, porque, enquanto estudante no ISE, tive docentes que eram voluntários de Corpo da Paz e eles partilhavam connosco a experiência do que é ser voluntário, ser líder, o que é trabalhar para o seu país sem esperar algo de volta. Isso acabou por me incentivar para o desenvolvimento comunitário e quando comecei a trabalhar com eles, a inspiração acabou por amadurecer a minha ideia de criar a APDZA.

Uni-CV: Depois do regresso do YALI, como é que esta experiência o ajudou a desenvolver novos projetos?

JL: A ideia de criar a associação dos ex-estudantes da Uni-CV é uma ideia que tive antes de viajar para os Estados Unidos para participar no programa YALI. Foi nesse contexto que acabei por me encontrar com a Reitora, a Dra. Judite do Nascimento, e manifestei o desejo de criar a associação dos antigos estudantes da Uni-CV. Ela mostrou-se totalmente disponível para ajudar. Também cheguei a conversar com alguns colegas antes de viajar para os Estados Unidos sobre a criação daquela associação, e todos eles estiveram de acordo. Em 2015 comecei a dar passos para a sua criação, porque quando viajei para o exterior, especialmente para os Estados Unidos, verifiquei que quase todas as Universidade têm uma rede alumni. Por exemplo, faço parte de uma associação dos antigos estudantes cabo-verdianos nos Estados Unidos, portanto temos uma rede universitária alumni. Esse projeto na Uni-CV seria uma forma de continuar a dar a nossa contribuição para a instituição, como seja para formação de novos profissionais, visto que há imensas formas com que podemos contribuir, por exemplo: realização de atividades culturais, eventos, recolha de donativos em prol do desenvolvimento do ambiente académico da Uni-CV.

Uni-CV: Poderia mencionar mais atividades, além das citadas?

JL: Poderíamos organizar conferências, workshops, encontros, palestras, pequenas contribuições no sentido de ajudar os estudantes mais carenciados, aquisição de materiais que poderiam ser colocados à disposição da biblioteca, intercâmbio de universidades, entre outros. Tudo isso ajudaria a Uni-CV a crescer, sabendo que é uma instituição nova, e de referência não só em Cabo Verde, mas também a nível de África.

Uni-CV: Após o término da licenciatura, que outras formações fez?

JL: Fiz o Mestrado em Ciências Sociais na Uni-CV com uma tese sobre o debate em torno da oficialização da Língua Cabo-verdiana.

Uni-CV: Escolheu sempre estudar na Uni-CV?

JL: Sim.

Uni-CV: Que mensagem gostaria de deixar aos estudantes da Uni-CV?

JL: Aquilo que sempre digo é que ainda há pessoas que pensam que em Cabo Verde as formações superiores têm menor qualidade, comparando com as do exterior. Em qualquer lugar que estudamos, a formação depende muito do estudante. Temos que investir cada vez mais para ter qualidade. Há muitas pessoas que se formaram no país e são extremamente bons profissionais, há outras pessoas que se formaram fora do país e que ainda precisam de amadurecer os seus conhecimentos, como em Cabo Verde também, haverão exemplos desses. Qualquer universidade prima pela qualidade. Hoje temos meios que antigamente não tínhamos, como é o caso de Biblioteca Digital. Temos que ser mais proactivos e determinantes. Se queremos ser bons profissionais, podemos ser bons independentemente do lugar onde estudamos.

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